Transits

cultura material, migrações e vida quotidiana

Tag: Berlim

Cartas do terreno, Berlim #4: vida de bairro e compras

Certo serão em casa, no início da minha estadia em Berlim, apeteceu-me comer um doce. Como não tinha nada suficientemente decadente em casa, resolvi sair de casa e ir até ao Späti mais proximo comprar um chocolate. O Späti, ou na sua formulação completa, Die Spätkauf, é um tipo de loja de conveniência em Berlim, que permanece aberta um pouco fora de horas.  

No caminho para lá, aproveitei para fazer um telefonema. Entrei no Späti ainda ao telefone e  fui-me demorando, entre a distração com o que estava a ser dito do lado de lá da linha e a própria indecisão na escolha do chocolate.  A determindada altura, o senhor que se encontrava por detrás do balcão disse, com ar zangado, algo que não compreendi; com gestos, pareceu mandar-me sair e terminar o telefonema na rua. Eu interrompi a chamada e troquei algumas palavras pouco simpáticas com o senhor.  No entanto, não saí da loja sem antes comprar o chocolate porque na realidade não tinha alternativa àquela hora da noite.

Quando cheguei a casa e contei o sucedido às minhas co-habitantes alemãs, a resposta que obtive foi que, na realidade, a minha atitude tinha sido desrespeitosa, na medida em que “na Alemanha, as pessoas que estão atrás do balcão querem ser tratadas como pessoas” e não ignoradas, como foi o caso. Apercebi-me que, apesar de ter dito um distraído e talvez pouco perceptível hallo! ao entrar na loja, ter estado o tempo todo ao telefone sem tentar estabelecer uma conversa de circunstância com o senhor do Späti, tinha sido uma atitude que para além de mal-educada, tinha sido impessoal demais para aquilo que seria expectável no contexto. A ideia que eu tinha de que o anonimato e a impessoalidade no trato seriam algo normal numa cidade da dimensão de Berlim, acabou por provar-se absolutamente errada.

O Spati é uma loja de conveniência, onde se compram os jornais e revistas, a lotaria, o ocasional refrigerante ou cerveja, uma refeição rápida, um chocolate ou aperitivo salgado, ou se levantam as encomendas da DHL. Tanto a loja em si, como a pessoa que está atrás do balcão e que normalmente é o dono do estabelecimento, são vistos como uma instituição do bairro. Quando continuei a contar sobre a troca de palavras desagradáveis entre mim e o Spati, uma das minhas interlocutoras encarou-me com algum choque e descrença, como se eu tivesse cometido uma heresia e disse “oh, não, tu não te queres meter com o Spati”,  provando o poder simbólico da instituição na sociedade berlinense.

Um Späti (com a estação local da DHL) no meu bairro.

Apesar de ser uma cidade grande, Berlim tem nos bairros o centro da vida quotidiana dos seus habitantes. Uma das coisas que salta à vista quando se passeia pelos vários distritos de Berlim, é que não existe uma separação clara entre zonas residenciais, zonas de trabalho, zonas comerciais e zonas de lazer. Tenho vindo a observar no bairro onde eu própria vivo, quea rua mantem-se dinâmica ao longo de todo o dia, seja pelo comércio tradicional e pequenos negócios,  seja pelas infraestruturas que permitirem que as pessoas não precisem de se afastar muito do edifício onde habitam para viver as suas vidas. 

Zona central do meu bairro, com o parque infantil e mesa de ping-pong em segundo plano, e zona de bancos em frente à farmácia, em primeiro plano.

O convívio entre vizinhos no espaço público é uma constante. Os espaços verdes marcam a paisagem. Nos jardins e parques, pessoas sentam-se e conversam enquato bebem uma cerveja ou partilham uma garrafa de vinho, e fazem-se festas de aniversário e barbecues nos relvados entre grupos maiores.  Os parques infantis, com zonas de baloiços e de areia são o ponto de encontro de pais e filhos pequenos ao fim de semana mas também durante a semana. As crianças brincam descalças com pás e baldes na areia; os pais, sentados nos bancos ou no chão, conversam entre si enquanto vigiam as crianças. O lado de fora das geladarias são também locais de convivio entre pais e filhos.

Geladaria em Prenzlauer Berg.

Outro espaço tradicional do bairro é a padaria, em alemão Bäckerei. É onde se compra o pão no dia-a-dia. A padaria vende uma variada de pães e bolos, mas também serve café, sumos, e refeições rápidas que se podem tomar ao pequeno almoço, como ovos e salsishas. Vende também alguns bens essenciais que não podem faltar num lar berlinense,  como ovos, leite ou manteiga. Co-existem com as tradicionais, as padarias mais gourmet, em zonas bairros mais afluentes ou gentrificados. Estas anunciam a venda de pão “sour dough” (massa lêveda), o uso de farinhas orgânicas ou biológicas, e oferecem o mesmo tipo de refeições pequenas que as padarias tradicionais, mas feitas com ingredientes mais selectivos e caros, como o abacate.

Fazem ainda parte da rede de comércio de proximidade a farmácia,  os pubs que vendem exclusivamente bebidas ou o ocasional schnitzel,  os cafés onde se pode encontrar pequenos grupos apreciando o seu Kaffee und Kuchen,  os pequenos restaurantes e cabeleireiros. Esta rede parece ser muito valorizada tanto pelos moradores mais antigos, como pelos mais novos, alemães ou estrangeiros. Entre os empregados – que podem muito bem, ser os donos do negócio – e os clientes, há a troca de cumprimentos e conversas curtas mas amistosas, e ouvem-se as novidades do bairro.

Padaria em Lichtenberg. Direitos reservaods.

Saindo do coração dos bairros chega-se em poucos minutos a uma artéria principal, onde o tipo de comércio, apesar de continuar fisicamente próximo, ganha outra dimensão. Estas ruas mais movimentadas e avenidas constituem aquilo que os britânicos chamam de high street. Lá encontramos a drogaria, uma referência nas compras quotidianas. A DM e a Rossmann são as cadeias de drogaria mais conhecida e que se encontram em maior número. Nelas normalmente se compram os itens de higiene pessoal e do lar. Existem também a secção de maquiagem, de revelação de fotografias, de roupa e outros artigos para bebé, e de comida com tendencia mais biológica, normalmente mais barata que os supermercados biológicos.

Os hipermercados encontra-se também na high street. Com ou sem parque de estacionamento de carros e sendo este parque de estacionamento maior ou mais pequeno, a verdade é que em Berlim priveligia-se o caminhar ou a bicicleta, pois nesta continuidade entre zonas residenciais e de comércio, as distâncias nunca são grandes. A gama de hipermercados é variada: desde os hipercados de desconto como Netto, Penny, Aldi ou Lidl, até aos hipermercados tradicionais como o Edeka, Rewe ou Kaufland. Com os produtos de higiene comprados na drogaria, as compras nos supermercados cinjem-se à alimentação.

Os já também tradicionais supermercados turcos, localizados tanto nas zonas residenciais como nas artérias principais, possuem normalmente um chamaitivo stand de frutas e legumes no lado de fora da loja. No seu interior, priveligiam-se os produtos vindos do médio oriente, as pastas frescas para barrar no pão, e o espesso iogurte turco, que a par das frutas e legumes, atraem também o público não árabe.

Supermercado turco em Treptow.

Os supermercados biológicos também podem ser de comércio tradicional nos coração dos bairros, ou de cadeia na high street. Assim como as drogarias, os hipermercados e os supermercados turcos, existem supermercados biológicos de cadeia em todas as artérias principais. As cadeias mais conhecidas são Bio Company, Denn’s, Alnatura ou LPG. Nestes supermercados, priveligiam-se as frutas e legumes, assim como os lacticínios e os ovos, não só por serem de origem biológica, mas também por oferecerem opções de origem local ou regional.

Opção de tomate regional em supermercado biológico.

Durante o trabalho de campo em Berlim, tem sido interessante de observar e conversar com os nossos participantes, sobre os modos como esta cultura de bairro e de comércio de proximidade altera os hábitos de consumo dos migrantes portugueses em Berlim.  Para saber mais sobre isso, fiquem atentos ao TRANSITS.

Até à próxima!

Diana

Berlim: população migrante portuguesa com pouca representação feminina

De acordo com as estatísticas oficiais,  em 2017 Berlim tinha uma população superior a 3,5 milhões, dos quais um quarto era estrangeira.

Os países mais representados eram a Turquia (11,4%), a Polónia (11,4%) e a Itália (4,9%). Os nacionais dos países da União Europeia perfaziam 49% e os portugueses 1,7% do total de migrantes.

Berlim é o quinto estado alemão com maior população oriunda da União Europeia, e o quarto em termos da população portuguesa, com 10,2%, ou seja 14 905 do total de 146 810 portuguese que vivem na Alemanha.

 

No período contemporâneo os migrantes portugueses foram sobretudo instalar-se nos estados alemães mais afluentes e cosmopolitas do sudoeste do país, cujos núcleos industriais importaram a maioria da mão-de-obra portuguesa que chegou ao país nos anos 1960 e 1970 ao abrigo do programa de  trabalhadores-convidados (Gastarbeiterprogramm).

Relativamente a Berlim, a cidade viu a sua população portuguesa crescer de forma estável desde a queda do Muro de Berlim até 2017, ano em que, já no período de recuperação da crise que proliferou o desemprego no sul da Europa, o número de migrantes portugueses triplicou relativamente ao ano de 2016. No entanto, enquanto que a população feminina duplicou para 3 210, a população masculina quadruplicou e chegou aos 11 695, fazendo com que a população feminina representasse apenas 22% do total de migrantes portugueses em Berlim. A proporção de mulheres migrantes é significativamente maior no total da população imigrante e entre Alemães.

Este aumento significativo recente da população portuguesa em Berlim, assim como a tímida representação feminina são dados relevante na caracterização da população portuguesa em Berlim, que abre questões e suscita hipóteses a serem testadas no decorrer da nossa investigação.

 

 

© 2019 Transits

Tema por Anders NorenUp ↑