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A cidade e a memória

Em Memories of a Nation, o autor Neil MacGregor argumenta que “a história alemã é um composto de narrativas locais diferentes, às vezes conflitantes”. E continua, dando o exemplo de Frederico, o Grande da Prússia – de cujo reino Berlim foi a capital de 1701 até a unificação em 1871 -, cujas guerras e ganhos territoriais eram muitas vezes realizados às custas de outros estados alemães. MacGregor argurmnta que, se Frederico, o Grande, poderia ser considerado um herói nacional em Berlim, em Dresden, ele seria considerado um vilão por ter destruído e capturado a cidade durante a Guerra dos Sete Anos.

Na história contemporânea, tais narrativas conflitantes tornam-se muito locais a Berlim, a cidade quese tornou capital e sede do regime Nazi. Hitler tinha planos de demolição e reconstrução da cidade, transformando-a na capital megalómana do III Reichl. No entanto, grande parte da cidade acabou por ser destruída, não por máquinas demolidoras, mas pelos bombardeios ​​dos Aliados. No final da II Guerra Mundial, cerca de quarenta por cento da população de Berlim tinha sido forçada a migrar para outro local devido às privações e fome ou devido à perseguição pelo regime; muitos milhares foram deportados à força e mortos pela Alemanha sob o regime Nazi.

Hoje, existem por toda a Berlim lembranças silenciosas das consequências devastadoras da guerra. Não falamos das dezenas de memoriais edificados ao longo dos anos que decorreram desde a Guerra, mas dos edifícios que foram intencionalmente deixados destruídos, como a Igreja Kaiser Wilhelm ou de outro tipo de intervenções públicas, como as milhares de Stolpersteine espalhados pelas calçadas da cidade.

As Stolpersteine são pedras de cobre gravadas com o nome e o destino de vítimas individuais do Nazismo, colocadas na calçada do preciso local onde cada uma dessas vítima viveu. O projecto, de um artista conceptual alemão, está em curso e foi adotado por várias cidades da Alemanha e outros países da Europa central, embora não sem controvérsias: há quem argumente que é desrespeitoso que os pequenos memoriais estejam localizados sob os pés dos transeuntes, e duvide do efeito de ‘obstáculo’, questionando se elas de facto têm o efeito de fazer os transeuntes parar, considerar e prestar respeito às vítimas individuais; outros argumentam que o processo empodera e ajuda no luto dos sobreviventes e comunidades envolvidas, e que os sapatos dos transeuntes têm um efeito polidor no cobre, aumentando o brilho das placas ao longo dos anos.

Cinco Storpelsteine colocadas em frente a um bloco de apartamentos no distrito de Mitte.
O bunker Anhalter alberga agora o Berlin Story Museum.

Da guerra à divisão

Em 1945, Berlim tornou-se espólio de guerra e foi dividida entre os aliados vencedores. A cidade tornou-se permanentemente ocupada pelos soviéticos na sua parte leste e pelos ingleses, franceses e americanos na área ocidental. Com o advento da Guerra Fria, a divisão da cidade tornou-se não apenas ideológica, mas também física, com a construção do Muro de Berlim em 1961. Vizinhos, amigos e famílias permaneceram separados por quase 30 anos pelos 100 metros da ‘faixa da morte’.

A queda do muro, em 1989, tornou-se símbolo do triunfo da liberdade ocidental sobre o totalitarismo oriental. Nos anos 90, as áreas mais marginais de Berlim Oriental eram vistas como um paraíso por explorar por okupas e movimentos artísticos de vanguarda que chegaram vindos do ocidente. No entanto, para os berlinenses orientais, a queda do muro significou desemprego em massa, desigualdade salarial e discriminação por parte do Ocidente.

Hoje, os okupas encabeçam os protestos contra o capitalismo e a especulação imobiliária na cidade; e os fundadores da Love Parade – um evento techno nascido do lema pacifista “paz, alegria e panquecas”, que significava desarmamento, felicidade e fim da fome – dissociaram-se do evento, desiludidos com a sua comercialização.

Quando visitei o Berlin Story Museum, fiquei pouco impressionada com o edifício: um cubo de cimento delapidado construído como abrigo antiaéreo durante a II Guerra Mundial. Sobre a entrada do bunker tornado museu, um graffito ainda menos bonito: “aqueles que constroem bunkers, lançam as bombas”, datado provavelmente dos anos oitenta, quando a área, no distrito de Kreuzberg, na margem ocidental do Muro de Berlim, foi povoada por exilados turcos e curdos, e por comunidades punk e hip-hop. Essas comunidades, mais politicamente conscientes e subversivas, estão na gênese do espírito boêmio que Kreuzberg mantém até aos dias de hoje.

O bunker dos anos 40 e o graffito dos anos 80 foram assim preservados ao longo das décadas como um testemunho da História. Enquanto conjunto, é expressão dos paradoxos da guerra e da divisão em Berlim.

Seja pelo seu tamanho, localização ou por parecerem deslocados ou dissonantes do resto da paisagem, este tipo de monumentos – o Bunker e as Stolpersteine – confronta até os transeuntes mais distraídos, longe do frenesi da turistificação da História.

Como escreve Neil MacGregor, em Berlim e na Alemanha, os monumentos não têm o objetivo de comemorar vitórias nacionais; são antes “lembranças desconfortáveis ​​de fracasso e culpa [que] proclamam uma mensagem moral: que o passado oferece lições que devem ser usadas para dar forma ao futuro”.

Entrevista a Tiago Pais: «A imigração portuguesa em Berlim é muito mais jovem e muito mais qualificada, mas muito menos unida entre si»

Tiago Pais é um nome que rapidamente se torna familiar a quem chegue a Berlim nos dias de hoje e procure por uma presença portuguesa na cidade. Presidente da associação Berlinda, director do único jornal em língua portuguesa do país, o Portugal Post, Tiago aceitou conversar comigo sobre a sua experiência migratória, e partilhar as suas impressões sobre Berlim e a comunidade portuguesa.

O envolvimento em iniciativas viradas para a comunidade não foi um objectivo em si. Com uma carreira jovem mas consolidada na área da gestão no sector público, Tiago Pais resolveu mudar-se de Lisboa para Berlim em 2010,  para continuar estudos de pós-graduação na área.

«No meu primeiro ano de mestrado não tive qualquer contacto com portugueses e acho que essa é muito a experiência dos portugueses que vêm para Berlim, não há propriamente contacto com portugueses. […] Berlim, por contraponto ao resto da Alemanha, não teve vaga de imigração portuguesa nos anos 60 e 70, porque era uma cidade dividida e sem grandes oportunidades de trabalho. Era uma cidade com fraco desenvolvimento económico, que só atraiu uma mão contada de portugueses por razões essencialmente ideológicas. Nesse sentido, a imigração portuguesa em Berlim é muito mais jovem e muito mais qualificada, mas muito menos unida entre si porque não houve necessidade de criar sistemas de apoio mútuo como nas primeiras e segundas gerações que vieram em alturas em que era mais difícil o contacto com a língua estrangeira, a criação de laços e o próprio partir, porque o mundo era mais fechado. […] Berlim ainda chegou a ter uns clubes portugueses nos anos 70 e 80, e uma equipa de futebol, mas foi sol de pouca dura. Hoje há duas associações mais modernas que são a Berlinda e a 2314, que organizam projectos mais em torno da cultura, não tanto em torno da socialização e do convívio»

Tiago considera que a dispersão dos portugueses em Berlim está também relacionada com a geografia muito própria da cidade.

«A cidade é geograficamente muito dispersa, onde não há sequer um “centro da cidade”, como há em cidades mais pequenas e aldeias, em que há uma centralidade diferente.»

Aquela que considera a sua primeira grande exposição à comunidade portuguesa foi através do emprego no escritório de representação da Caixa Geral de Depósitos. No banco português, trabalhava com clientes portugueses residentes em toda a Alemanha, e que pertenciam, na sua grande maioria, a essas primeiras gerações. 

Entretanto Tiago envolveu-se nas actividades da Berlinda e, através dela, começou a  contactar com aqueles que, como ele, tinham chegado mais recentemente ao país e à cidade. Devido à orientação mais virada para a divulgação cultural da Berlinda, a ela afluíam artistas plásticos, designers, músicos, o tipo de ocupações que Tiago considera serem ainda dominantes entre os que chegam.

«Berlim tem um apelo e uma filosofia de cidade que é muito apelativa para malta mais alternativa e criativa. É um espaço de experimentação.»

Quando, em 2016, a fundadora e primeira presidente da Berlinda se afastou para regressar a Portugal, Tiago assumiu a presidência da associação. Pouco tempo depois acabaria também por assumir o jornal Portugal Post, fundado em 1993 em Dortmund. Para Tiago existe uma complementaridade no trabalho das duas instituições.

«A Berlinda trabalha não só a comunidade portuguesa, mas a cultura em língua portuguesa. Portanto, esbate fronteiras entre Portugal, o  Brasil, os países de língua oficial portuguesa em África, na Ásia e Oceânia. A Berlinda tem um magazine online com conteúdo sobretudo cultural, e foi aí que eu vi sinergias com o Portugal Post. Se pensarmos hoje em dia na transversalidade dos projectos, acabo por ter um contacto muito mais alargado com a comunidade portuguesa do que tinha antes, embora o jornal esteja muito mais alinhado com a comunidade portuguesa com a qual eu contactava na CGD e que é muito mais a imigração tradicional e dispersa pelo país, que é o público subscritor do jornal, um público que é muito maior fora de Berlim.»

A distribuição do Portugal Post é feita por correio para os seus cerca de mil subscritores, e em trezentos postos de venda localizados em toda a Alemanha, sobretudo em quiosques de estações de comboio. O jornal é ainda distribuído aos consulados. 

«O jornal tem um papel de elemento de companhia, especialmente junto da imigração com mais anos na Alemanha, tem o factor de contacto com a língua. O jornal passou por uma grande mudança editorial a partir do momento em que eu assumi a direcção e talvez seja um bocadinho mais exigente do que anteriormente no conteúdo e na linguagem utilizada. Mas mesmo assim, as pessoas não abandonaram a leitura.Uma coisa que também é muito valorizada no jornal é o facto de haver uma secção de informação social, em que são explicadas informações sobre a vida na Alemanha como os sistemas de pensões, de apoio à doença… coisas muito práticas e que as pessoas gostam de ler para se informarem. Muitas vezes o acesso a este tipo de informação é dificultado pelo facto de se encontrar acessível apenas em alemão nos canais oficiais. Nesse sentido o jornal constitui um ponto de informação muito relevante. A Berlinda também tem uma parte que tem a ver com indicações muito práticas – como viver em Berlim, como procurar casa, lista de médicos que falam português, de contabilistas que falam português… Depois há uma promoção da cultura portuguesa que acho que atrai as pessoas que gostam de ver coisas boas a ser feitas em português. Há entrevistas a pintores, músicos, escultores…»

O negócio dos vinhos

Anterior à Berlinda e ao Portugal Post, é o interesse de Tiago Pais pelo vinho português. É proprietário do 7 Mares, uma loja e wine bar localizado no cosmopolita distrito de Kreuzberg, onde esta entrevista teve lugar. Apesar de a maioria dos clientes serem alemães, Tiago ancara o negócio também como uma forma de levar os portugueses que não se enquadram numa “comunidade portuguesa” à antiga, a darem a conhecer e partilhar a sua cultura no ambiente mais internacional em que se movimentam.

«O meu primeiro empreendimento é o negócio de vinhos. Isso tem a ver com uma tradição sociocultural portuguesa, claramente, e eu acho que há uma falta de conhecimento sobre o vinho português, portanto eu acho que é uma missão aumentar a notoriedade do vinho português. O negócio de vinhos atrai muito mais um segmento, no que toca a portugueses, mais jovem , mais qualificado, mais interessado e mais independente da comunidade. O interesse deste público é mostrar ao amigo alemão, chinês, italiano… dar a conhecer o vinho português, até porque nós temos também provas de vinho e eventos culturais.»

Berlim e o regresso a Lisboa

Como empreendedor que é, com experiência de trabalho e negócios em Portugal e na Alemanha, Tiago Pais sente que é mais fácil gerir negócios em Portugal onde é possível realizar muitos dos contactos com a administração pública através de email ou formulários e aplicações online. Esse é um factor importante nas suas perspectivas para o futuro a longo prazo, ponderando um regresso a Portugal que ainda não está marcado. Porém, Tiago é rápido a enumerar aquilo que faz de Berlim uma cidade boa para se viver:

«Em Berlim o sistema de transportes é bem desenhado, os espaços verdes são brutais e estão em todo o lado, aliás, acho que quem visita fica sempre perplexo porque acha que a Alemanha é cinzenta, mas Berlim é muito mais verde que a maior parte das cidades portuguesas, há árvores em quase todas as ruas, há parques em todo o lado e as pessoas aproveitam mais a rua, vive-se mais a rua que em Portugal. Há também uma importante vida de bairro, mas isso também tem a ver com a forma como a cidade cresceu – foi por anexação, não foi por crescimento orgânico, portanto as áreas que foram anexadas já tinham a sua centralidade e essa centralidade permanece hoje em dia, não houve uma convergência para um centro único. Isso leva a que as pessoas vivam mais o seu espaço, façam mais compras locais e haja menos consumismo no sentido de ir a um grande espaço e fazer grandes compras para o mês; faz-se mais a compra na base diária ou semanal, na loja de esquina, quando se volta do emprego. Isso acaba por ser mais simpático.»

Mas…

«Lisboa tem coisas óptimas, está perto da costa, Portugal tem uma cozinha extraordinária, uma luz mais intensa… Coisas que tenho cá de outra forma: aqui é muito mais simpático andar de bicicleta, há os lagos que permitem nadar, é outra experiência de natureza. Mas para quem nasceu em Portugal há outra afinidade com a praia e com a cozinha, não há como contornar…»

FIM

Cartas do terreno, Berlim #4: vida de bairro e compras

Certo serão em casa, no início da minha estadia em Berlim, apeteceu-me comer um doce. Como não tinha nada suficientemente decadente em casa, resolvi sair de casa e ir até ao Späti mais proximo comprar um chocolate. O Späti, ou na sua formulação completa, Die Spätkauf, é um tipo de loja de conveniência em Berlim, que permanece aberta um pouco fora de horas.  

No caminho para lá, aproveitei para fazer um telefonema. Entrei no Späti ainda ao telefone e  fui-me demorando, entre a distração com o que estava a ser dito do lado de lá da linha e a própria indecisão na escolha do chocolate.  A determindada altura, o senhor que se encontrava por detrás do balcão disse, com ar zangado, algo que não compreendi; com gestos, pareceu mandar-me sair e terminar o telefonema na rua. Eu interrompi a chamada e troquei algumas palavras pouco simpáticas com o senhor.  No entanto, não saí da loja sem antes comprar o chocolate porque na realidade não tinha alternativa àquela hora da noite.

Quando cheguei a casa e contei o sucedido às minhas co-habitantes alemãs, a resposta que obtive foi que, na realidade, a minha atitude tinha sido desrespeitosa, na medida em que “na Alemanha, as pessoas que estão atrás do balcão querem ser tratadas como pessoas” e não ignoradas, como foi o caso. Apercebi-me que, apesar de ter dito um distraído e talvez pouco perceptível hallo! ao entrar na loja, ter estado o tempo todo ao telefone sem tentar estabelecer uma conversa de circunstância com o senhor do Späti, tinha sido uma atitude que para além de mal-educada, tinha sido impessoal demais para aquilo que seria expectável no contexto. A ideia que eu tinha de que o anonimato e a impessoalidade no trato seriam algo normal numa cidade da dimensão de Berlim, acabou por provar-se absolutamente errada.

O Spati é uma loja de conveniência, onde se compram os jornais e revistas, a lotaria, o ocasional refrigerante ou cerveja, uma refeição rápida, um chocolate ou aperitivo salgado, ou se levantam as encomendas da DHL. Tanto a loja em si, como a pessoa que está atrás do balcão e que normalmente é o dono do estabelecimento, são vistos como uma instituição do bairro. Quando continuei a contar sobre a troca de palavras desagradáveis entre mim e o Spati, uma das minhas interlocutoras encarou-me com algum choque e descrença, como se eu tivesse cometido uma heresia e disse “oh, não, tu não te queres meter com o Spati”,  provando o poder simbólico da instituição na sociedade berlinense.

Um Späti (com a estação local da DHL) no meu bairro.

Apesar de ser uma cidade grande, Berlim tem nos bairros o centro da vida quotidiana dos seus habitantes. Uma das coisas que salta à vista quando se passeia pelos vários distritos de Berlim, é que não existe uma separação clara entre zonas residenciais, zonas de trabalho, zonas comerciais e zonas de lazer. Tenho vindo a observar no bairro onde eu própria vivo, quea rua mantem-se dinâmica ao longo de todo o dia, seja pelo comércio tradicional e pequenos negócios,  seja pelas infraestruturas que permitirem que as pessoas não precisem de se afastar muito do edifício onde habitam para viver as suas vidas. 

Zona central do meu bairro, com o parque infantil e mesa de ping-pong em segundo plano, e zona de bancos em frente à farmácia, em primeiro plano.

O convívio entre vizinhos no espaço público é uma constante. Os espaços verdes marcam a paisagem. Nos jardins e parques, pessoas sentam-se e conversam enquato bebem uma cerveja ou partilham uma garrafa de vinho, e fazem-se festas de aniversário e barbecues nos relvados entre grupos maiores.  Os parques infantis, com zonas de baloiços e de areia são o ponto de encontro de pais e filhos pequenos ao fim de semana mas também durante a semana. As crianças brincam descalças com pás e baldes na areia; os pais, sentados nos bancos ou no chão, conversam entre si enquanto vigiam as crianças. O lado de fora das geladarias são também locais de convivio entre pais e filhos.

Geladaria em Prenzlauer Berg.

Outro espaço tradicional do bairro é a padaria, em alemão Bäckerei. É onde se compra o pão no dia-a-dia. A padaria vende uma variada de pães e bolos, mas também serve café, sumos, e refeições rápidas que se podem tomar ao pequeno almoço, como ovos e salsishas. Vende também alguns bens essenciais que não podem faltar num lar berlinense,  como ovos, leite ou manteiga. Co-existem com as tradicionais, as padarias mais gourmet, em zonas bairros mais afluentes ou gentrificados. Estas anunciam a venda de pão “sour dough” (massa lêveda), o uso de farinhas orgânicas ou biológicas, e oferecem o mesmo tipo de refeições pequenas que as padarias tradicionais, mas feitas com ingredientes mais selectivos e caros, como o abacate.

Fazem ainda parte da rede de comércio de proximidade a farmácia,  os pubs que vendem exclusivamente bebidas ou o ocasional schnitzel,  os cafés onde se pode encontrar pequenos grupos apreciando o seu Kaffee und Kuchen,  os pequenos restaurantes e cabeleireiros. Esta rede parece ser muito valorizada tanto pelos moradores mais antigos, como pelos mais novos, alemães ou estrangeiros. Entre os empregados – que podem muito bem, ser os donos do negócio – e os clientes, há a troca de cumprimentos e conversas curtas mas amistosas, e ouvem-se as novidades do bairro.

Padaria em Lichtenberg. Direitos reservaods.

Saindo do coração dos bairros chega-se em poucos minutos a uma artéria principal, onde o tipo de comércio, apesar de continuar fisicamente próximo, ganha outra dimensão. Estas ruas mais movimentadas e avenidas constituem aquilo que os britânicos chamam de high street. Lá encontramos a drogaria, uma referência nas compras quotidianas. A DM e a Rossmann são as cadeias de drogaria mais conhecida e que se encontram em maior número. Nelas normalmente se compram os itens de higiene pessoal e do lar. Existem também a secção de maquiagem, de revelação de fotografias, de roupa e outros artigos para bebé, e de comida com tendencia mais biológica, normalmente mais barata que os supermercados biológicos.

Os hipermercados encontra-se também na high street. Com ou sem parque de estacionamento de carros e sendo este parque de estacionamento maior ou mais pequeno, a verdade é que em Berlim priveligia-se o caminhar ou a bicicleta, pois nesta continuidade entre zonas residenciais e de comércio, as distâncias nunca são grandes. A gama de hipermercados é variada: desde os hipercados de desconto como Netto, Penny, Aldi ou Lidl, até aos hipermercados tradicionais como o Edeka, Rewe ou Kaufland. Com os produtos de higiene comprados na drogaria, as compras nos supermercados cinjem-se à alimentação.

Os já também tradicionais supermercados turcos, localizados tanto nas zonas residenciais como nas artérias principais, possuem normalmente um chamaitivo stand de frutas e legumes no lado de fora da loja. No seu interior, priveligiam-se os produtos vindos do médio oriente, as pastas frescas para barrar no pão, e o espesso iogurte turco, que a par das frutas e legumes, atraem também o público não árabe.

Supermercado turco em Treptow.

Os supermercados biológicos também podem ser de comércio tradicional nos coração dos bairros, ou de cadeia na high street. Assim como as drogarias, os hipermercados e os supermercados turcos, existem supermercados biológicos de cadeia em todas as artérias principais. As cadeias mais conhecidas são Bio Company, Denn’s, Alnatura ou LPG. Nestes supermercados, priveligiam-se as frutas e legumes, assim como os lacticínios e os ovos, não só por serem de origem biológica, mas também por oferecerem opções de origem local ou regional.

Opção de tomate regional em supermercado biológico.

Durante o trabalho de campo em Berlim, tem sido interessante de observar e conversar com os nossos participantes, sobre os modos como esta cultura de bairro e de comércio de proximidade altera os hábitos de consumo dos migrantes portugueses em Berlim.  Para saber mais sobre isso, fiquem atentos ao TRANSITS.

Até à próxima!

Diana

Berlim: população migrante portuguesa com pouca representação feminina

De acordo com as estatísticas oficiais,  em 2017 Berlim tinha uma população superior a 3,5 milhões, dos quais um quarto era estrangeira.

Os países mais representados eram a Turquia (11,4%), a Polónia (11,4%) e a Itália (4,9%). Os nacionais dos países da União Europeia perfaziam 49% e os portugueses 1,7% do total de migrantes.

Berlim é o quinto estado alemão com maior população oriunda da União Europeia, e o quarto em termos da população portuguesa, com 10,2%, ou seja 14 905 do total de 146 810 portuguese que vivem na Alemanha.

No período contemporâneo os migrantes portugueses foram sobretudo instalar-se nos estados alemães mais afluentes e cosmopolitas do sudoeste do país, cujos núcleos industriais importaram a maioria da mão-de-obra portuguesa que chegou ao país nos anos 1960 e 1970 ao abrigo do programa de  trabalhadores-convidados (Gastarbeiterprogramm).

Relativamente a Berlim, a cidade viu a sua população portuguesa crescer de forma estável desde a queda do Muro de Berlim até 2017, ano em que, já no período de recuperação da crise que proliferou o desemprego no sul da Europa, o número de migrantes portugueses triplicou relativamente ao ano de 2016. No entanto, enquanto que a população feminina duplicou para 3 210, a população masculina quadruplicou e chegou aos 11 695, fazendo com que a população feminina representasse apenas 22% do total de migrantes portugueses em Berlim. A proporção de mulheres migrantes é significativamente maior no total da população imigrante e entre Alemães.

Este aumento significativo recente da população portuguesa em Berlim, assim como a tímida representação feminina são dados relevante na caracterização da população portuguesa em Berlim, que abre questões e suscita hipóteses a serem testadas no decorrer da nossa investigação.

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