Transits

cultura material, migrações e vida quotidiana

Categoria: Alemanha

A cidade e a memória

Em Memories of a Nation, o autor Neil MacGregor argumenta que “a história alemã é um composto de narrativas locais diferentes, às vezes conflitantes”. E continua, dando o exemplo de Frederico, o Grande da Prússia – de cujo reino Berlim foi a capital de 1701 até a unificação em 1871 -, cujas guerras e ganhos territoriais eram muitas vezes realizados às custas de outros estados alemães. MacGregor argurmnta que, se Frederico, o Grande, poderia ser considerado um herói nacional em Berlim, em Dresden, ele seria considerado um vilão por ter destruído e capturado a cidade durante a Guerra dos Sete Anos.

Na história contemporânea, tais narrativas conflitantes tornam-se muito locais a Berlim, a cidade quese tornou capital e sede do regime Nazi. Hitler tinha planos de demolição e reconstrução da cidade, transformando-a na capital megalómana do III Reichl. No entanto, grande parte da cidade acabou por ser destruída, não por máquinas demolidoras, mas pelos bombardeios ​​dos Aliados. No final da II Guerra Mundial, cerca de quarenta por cento da população de Berlim tinha sido forçada a migrar para outro local devido às privações e fome ou devido à perseguição pelo regime; muitos milhares foram deportados à força e mortos pela Alemanha sob o regime Nazi.

Hoje, existem por toda a Berlim lembranças silenciosas das consequências devastadoras da guerra. Não falamos das dezenas de memoriais edificados ao longo dos anos que decorreram desde a Guerra, mas dos edifícios que foram intencionalmente deixados destruídos, como a Igreja Kaiser Wilhelm ou de outro tipo de intervenções públicas, como as milhares de Stolpersteine espalhados pelas calçadas da cidade.

As Stolpersteine são pedras de cobre gravadas com o nome e o destino de vítimas individuais do Nazismo, colocadas na calçada do preciso local onde cada uma dessas vítima viveu. O projecto, de um artista conceptual alemão, está em curso e foi adotado por várias cidades da Alemanha e outros países da Europa central, embora não sem controvérsias: há quem argumente que é desrespeitoso que os pequenos memoriais estejam localizados sob os pés dos transeuntes, e duvide do efeito de ‘obstáculo’, questionando se elas de facto têm o efeito de fazer os transeuntes parar, considerar e prestar respeito às vítimas individuais; outros argumentam que o processo empodera e ajuda no luto dos sobreviventes e comunidades envolvidas, e que os sapatos dos transeuntes têm um efeito polidor no cobre, aumentando o brilho das placas ao longo dos anos.

Cinco Storpelsteine colocadas em frente a um bloco de apartamentos no distrito de Mitte.
O bunker Anhalter alberga agora o Berlin Story Museum.

Da guerra à divisão

Em 1945, Berlim tornou-se espólio de guerra e foi dividida entre os aliados vencedores. A cidade tornou-se permanentemente ocupada pelos soviéticos na sua parte leste e pelos ingleses, franceses e americanos na área ocidental. Com o advento da Guerra Fria, a divisão da cidade tornou-se não apenas ideológica, mas também física, com a construção do Muro de Berlim em 1961. Vizinhos, amigos e famílias permaneceram separados por quase 30 anos pelos 100 metros da ‘faixa da morte’.

A queda do muro, em 1989, tornou-se símbolo do triunfo da liberdade ocidental sobre o totalitarismo oriental. Nos anos 90, as áreas mais marginais de Berlim Oriental eram vistas como um paraíso por explorar por okupas e movimentos artísticos de vanguarda que chegaram vindos do ocidente. No entanto, para os berlinenses orientais, a queda do muro significou desemprego em massa, desigualdade salarial e discriminação por parte do Ocidente.

Hoje, os okupas encabeçam os protestos contra o capitalismo e a especulação imobiliária na cidade; e os fundadores da Love Parade – um evento techno nascido do lema pacifista “paz, alegria e panquecas”, que significava desarmamento, felicidade e fim da fome – dissociaram-se do evento, desiludidos com a sua comercialização.

Quando visitei o Berlin Story Museum, fiquei pouco impressionada com o edifício: um cubo de cimento delapidado construído como abrigo antiaéreo durante a II Guerra Mundial. Sobre a entrada do bunker tornado museu, um graffito ainda menos bonito: “aqueles que constroem bunkers, lançam as bombas”, datado provavelmente dos anos oitenta, quando a área, no distrito de Kreuzberg, na margem ocidental do Muro de Berlim, foi povoada por exilados turcos e curdos, e por comunidades punk e hip-hop. Essas comunidades, mais politicamente conscientes e subversivas, estão na gênese do espírito boêmio que Kreuzberg mantém até aos dias de hoje.

O bunker dos anos 40 e o graffito dos anos 80 foram assim preservados ao longo das décadas como um testemunho da História. Enquanto conjunto, é expressão dos paradoxos da guerra e da divisão em Berlim.

Seja pelo seu tamanho, localização ou por parecerem deslocados ou dissonantes do resto da paisagem, este tipo de monumentos – o Bunker e as Stolpersteine – confronta até os transeuntes mais distraídos, longe do frenesi da turistificação da História.

Como escreve Neil MacGregor, em Berlim e na Alemanha, os monumentos não têm o objetivo de comemorar vitórias nacionais; são antes “lembranças desconfortáveis ​​de fracasso e culpa [que] proclamam uma mensagem moral: que o passado oferece lições que devem ser usadas para dar forma ao futuro”.

Cartas do terreno, Berlim #4: vida de bairro e compras

Certo serão em casa, no início da minha estadia em Berlim, apeteceu-me comer um doce. Como não tinha nada suficientemente decadente em casa, resolvi sair de casa e ir até ao Späti mais proximo comprar um chocolate. O Späti, ou na sua formulação completa, Die Spätkauf, é um tipo de loja de conveniência em Berlim, que permanece aberta um pouco fora de horas.  

No caminho para lá, aproveitei para fazer um telefonema. Entrei no Späti ainda ao telefone e  fui-me demorando, entre a distração com o que estava a ser dito do lado de lá da linha e a própria indecisão na escolha do chocolate.  A determindada altura, o senhor que se encontrava por detrás do balcão disse, com ar zangado, algo que não compreendi; com gestos, pareceu mandar-me sair e terminar o telefonema na rua. Eu interrompi a chamada e troquei algumas palavras pouco simpáticas com o senhor.  No entanto, não saí da loja sem antes comprar o chocolate porque na realidade não tinha alternativa àquela hora da noite.

Quando cheguei a casa e contei o sucedido às minhas co-habitantes alemãs, a resposta que obtive foi que, na realidade, a minha atitude tinha sido desrespeitosa, na medida em que “na Alemanha, as pessoas que estão atrás do balcão querem ser tratadas como pessoas” e não ignoradas, como foi o caso. Apercebi-me que, apesar de ter dito um distraído e talvez pouco perceptível hallo! ao entrar na loja, ter estado o tempo todo ao telefone sem tentar estabelecer uma conversa de circunstância com o senhor do Späti, tinha sido uma atitude que para além de mal-educada, tinha sido impessoal demais para aquilo que seria expectável no contexto. A ideia que eu tinha de que o anonimato e a impessoalidade no trato seriam algo normal numa cidade da dimensão de Berlim, acabou por provar-se absolutamente errada.

O Spati é uma loja de conveniência, onde se compram os jornais e revistas, a lotaria, o ocasional refrigerante ou cerveja, uma refeição rápida, um chocolate ou aperitivo salgado, ou se levantam as encomendas da DHL. Tanto a loja em si, como a pessoa que está atrás do balcão e que normalmente é o dono do estabelecimento, são vistos como uma instituição do bairro. Quando continuei a contar sobre a troca de palavras desagradáveis entre mim e o Spati, uma das minhas interlocutoras encarou-me com algum choque e descrença, como se eu tivesse cometido uma heresia e disse “oh, não, tu não te queres meter com o Spati”,  provando o poder simbólico da instituição na sociedade berlinense.

Um Späti (com a estação local da DHL) no meu bairro.

Apesar de ser uma cidade grande, Berlim tem nos bairros o centro da vida quotidiana dos seus habitantes. Uma das coisas que salta à vista quando se passeia pelos vários distritos de Berlim, é que não existe uma separação clara entre zonas residenciais, zonas de trabalho, zonas comerciais e zonas de lazer. Tenho vindo a observar no bairro onde eu própria vivo, quea rua mantem-se dinâmica ao longo de todo o dia, seja pelo comércio tradicional e pequenos negócios,  seja pelas infraestruturas que permitirem que as pessoas não precisem de se afastar muito do edifício onde habitam para viver as suas vidas. 

Zona central do meu bairro, com o parque infantil e mesa de ping-pong em segundo plano, e zona de bancos em frente à farmácia, em primeiro plano.

O convívio entre vizinhos no espaço público é uma constante. Os espaços verdes marcam a paisagem. Nos jardins e parques, pessoas sentam-se e conversam enquato bebem uma cerveja ou partilham uma garrafa de vinho, e fazem-se festas de aniversário e barbecues nos relvados entre grupos maiores.  Os parques infantis, com zonas de baloiços e de areia são o ponto de encontro de pais e filhos pequenos ao fim de semana mas também durante a semana. As crianças brincam descalças com pás e baldes na areia; os pais, sentados nos bancos ou no chão, conversam entre si enquanto vigiam as crianças. O lado de fora das geladarias são também locais de convivio entre pais e filhos.

Geladaria em Prenzlauer Berg.

Outro espaço tradicional do bairro é a padaria, em alemão Bäckerei. É onde se compra o pão no dia-a-dia. A padaria vende uma variada de pães e bolos, mas também serve café, sumos, e refeições rápidas que se podem tomar ao pequeno almoço, como ovos e salsishas. Vende também alguns bens essenciais que não podem faltar num lar berlinense,  como ovos, leite ou manteiga. Co-existem com as tradicionais, as padarias mais gourmet, em zonas bairros mais afluentes ou gentrificados. Estas anunciam a venda de pão “sour dough” (massa lêveda), o uso de farinhas orgânicas ou biológicas, e oferecem o mesmo tipo de refeições pequenas que as padarias tradicionais, mas feitas com ingredientes mais selectivos e caros, como o abacate.

Fazem ainda parte da rede de comércio de proximidade a farmácia,  os pubs que vendem exclusivamente bebidas ou o ocasional schnitzel,  os cafés onde se pode encontrar pequenos grupos apreciando o seu Kaffee und Kuchen,  os pequenos restaurantes e cabeleireiros. Esta rede parece ser muito valorizada tanto pelos moradores mais antigos, como pelos mais novos, alemães ou estrangeiros. Entre os empregados – que podem muito bem, ser os donos do negócio – e os clientes, há a troca de cumprimentos e conversas curtas mas amistosas, e ouvem-se as novidades do bairro.

Padaria em Lichtenberg. Direitos reservaods.

Saindo do coração dos bairros chega-se em poucos minutos a uma artéria principal, onde o tipo de comércio, apesar de continuar fisicamente próximo, ganha outra dimensão. Estas ruas mais movimentadas e avenidas constituem aquilo que os britânicos chamam de high street. Lá encontramos a drogaria, uma referência nas compras quotidianas. A DM e a Rossmann são as cadeias de drogaria mais conhecida e que se encontram em maior número. Nelas normalmente se compram os itens de higiene pessoal e do lar. Existem também a secção de maquiagem, de revelação de fotografias, de roupa e outros artigos para bebé, e de comida com tendencia mais biológica, normalmente mais barata que os supermercados biológicos.

Os hipermercados encontra-se também na high street. Com ou sem parque de estacionamento de carros e sendo este parque de estacionamento maior ou mais pequeno, a verdade é que em Berlim priveligia-se o caminhar ou a bicicleta, pois nesta continuidade entre zonas residenciais e de comércio, as distâncias nunca são grandes. A gama de hipermercados é variada: desde os hipercados de desconto como Netto, Penny, Aldi ou Lidl, até aos hipermercados tradicionais como o Edeka, Rewe ou Kaufland. Com os produtos de higiene comprados na drogaria, as compras nos supermercados cinjem-se à alimentação.

Os já também tradicionais supermercados turcos, localizados tanto nas zonas residenciais como nas artérias principais, possuem normalmente um chamaitivo stand de frutas e legumes no lado de fora da loja. No seu interior, priveligiam-se os produtos vindos do médio oriente, as pastas frescas para barrar no pão, e o espesso iogurte turco, que a par das frutas e legumes, atraem também o público não árabe.

Supermercado turco em Treptow.

Os supermercados biológicos também podem ser de comércio tradicional nos coração dos bairros, ou de cadeia na high street. Assim como as drogarias, os hipermercados e os supermercados turcos, existem supermercados biológicos de cadeia em todas as artérias principais. As cadeias mais conhecidas são Bio Company, Denn’s, Alnatura ou LPG. Nestes supermercados, priveligiam-se as frutas e legumes, assim como os lacticínios e os ovos, não só por serem de origem biológica, mas também por oferecerem opções de origem local ou regional.

Opção de tomate regional em supermercado biológico.

Durante o trabalho de campo em Berlim, tem sido interessante de observar e conversar com os nossos participantes, sobre os modos como esta cultura de bairro e de comércio de proximidade altera os hábitos de consumo dos migrantes portugueses em Berlim.  Para saber mais sobre isso, fiquem atentos ao TRANSITS.

Até à próxima!

Diana

Cartas do terreno, Berlim #3: um supermercado português em Berlim

Muito perto da Embaixada Portuguesa em Berlim, existe um supermercado português de que toda a gente me fala desde que cheguei. As famílias portuguesas que conheço raramente lá fazem compras, mas todas já visitaram o local pelo menos uma vez, para comprar ingredientes específicos para ocasiões especiais, como a preparação de um prato português para amigos, ou simplesmente para matar saudades.

O supermercado vende produtos com embalagem e sabores que nos são familiares. Também lá se encontram produtos de Espanha e da América do Sul. Existe um bar à entrada que serve bicas e outros cafés, doçaria e pastelaria portuguesa, petiscos, assim como refeições caseiras que parecem ser feitas mais ao gosto alemão (naquele dia havia estufado de lentilhas). A senhora que estava na caixa, informa-me que a grande maioria dos clientes é alemã, pessoas que vivem ou trabalham nas redondezas, assim como turistas hospedados no hostel da porta ao lado.

Canela, um ingrediente indispensável da doçaria portuguesa.

 

Doces.

Batatas fritas no formato necessário à confecção do bacalhau à Brás.

Bacalhau seco e salgado congelado.

Um das marcas de arroz mais conhecidas.

Uma das marcas de massas mais conhecidas.

Refrigerantes.

Águas e cervejas.

 

Azeite.

Marcas internacionais são proprietárias de marcas nacionais que são nossas conhecidas de há muito tempo.

Farinhas de trigo e milho.

As mais conhecidas marcas de papas de criança.

Uma bica e um pão de ló de Alfazeirão.

Pastelaria.

Petiscos.

 

 

Notas do campo – Berlim #2, Sardinhada em Berlim

Na semana passada fui ao baby shower de uma das nossas famílias participantes em Berlim. Em conversa com portugueses, soube que no fim de semana seguinte haveria uma festa portuguesa no Parque Monbijou, no centro de Berlim. Não obtive mais detalhes no momento, mas uma rápida pesquisa na internet conduziu-me ao  evento no facebook. 

Tratava-se, na verdade, uma sardinhada,  um evento muito sazonal, particular desta época do ano em portugal.  A temporada de pesca da sardinha começou há algumas semanas e junho é o mês em que ocorrem várias festas em homenagem a Santo Antônio, São João ou São Pedro (os santos populares) em muitos locais do país. As festas incluem fogueiras, e sardinhas assadas no pão, ao som de  música pimba

A view of the picnic at Monbijou park, with the grilling station at the back.

No entanto, a sardinhada em Monbijou não parecia querer reproduzir as festas dos santos populares em Portugal. Não havia música a tocar alto, assinalando o evento à distância. O evento parecia mais um grande piquenique, com um stand ao lado do grelhador vendendo comida e bebida, e as pessoas sentadas em grupos nas mantas trazidas de casa. Os churracos são permitidos na maioria dos parques em Berlim, havendo sinaletica indicando as áreas específicas onde são permitidos. Este é um dos muitos usos que os berlinenses dão aos parques. Outros usos incluem banhos de sol (frequentemente em fato de banho), sentar em cadeiras dobráveis ​​a tomar bebidas enquanto se contempla uma paisagem, pendurar redes em árvores e nelas se deitar, jogar jogos de grupo, etc. Os parques parecem definir a vida pública de Berlim e os estilos de vida dos seus habitantes. E se isto for verdade, então não poderia ser mais verdade do que neste mês muito quente de junho.

Estaciono a minha bicicleta e ando entre a multidão. Português, alemão, italiano e espanhol são idiomas que podem ser ouvidos falar por pessoas de todas as idades. Entro na fila para comprar comida. Atrás de mim, duas mulheres de meia-idade falam português do Brasil, à minha frente, duas mulheres na faixa dos 20 anos que usam o youtube nos seus smartphones para mostrar um amigo que fala inglês, o que é e como soa a música pimba.

Sardines and German sausages. Portuguese rock salt.

Beer ans soft drinks on ice.

Apron.

Da grelha, vão saíndo não só as habituais sardinhas e bifanas, mas também salsichas de tipo alemão, que não são tradicionalmente encontradas nas sardinhasdas que tenho como referência. Adaptação da sardinhada ao ambiente de Berlim? Peço duas sardinhas em pão de trigo, embora também esteja disponível o pão de milho. Acompanho com um Sumol de ananás fresco dos alguidares de gelo com cervejas e refrigerantes portugueses. Também há vinho tinto e branco portugueses.

A senhora que fatia o pão interrompe a sua tarefa para saudar uma amigo que lhe entrega um avental com a palavra Portugal bordada, o que provoca uma imediata reação das suas colegas que também exigem a mesma oferta, em tom de brincadeira. As bebidas e os alimentos foram fornecidos por um supermercado português em Berlim, e o pão por uma padaria greco-portuguesa, ambos publicitados. Foi-me dito que em anos anteriores eram vendidos também pastéis de nata, mas para minha decepção, tal não acontece este ano.

Começam a realizar-se oficinas de bombos de dez em dez minutos, o que faz com que a festa finalmente tenha música ambiente! Mais tarde, um rancho também se apresenta num cruzamento de alcatrão dentro do parque. Os membros do rancho parecem ser todos portugueses ou seus descendentes, e as idades parecem ir dos vinte aos sessenta. Duas meninas que parecem ter menos de cinco anos, também participam às vezes, guiadas pelos bailarinos mais velhos. Os membros do rancho não vestem as tradicionais roupas de rancho, mas em vez disso envergam as suas próprias roupas. Um bailarino veste uma t-shirt de Cristiano Ronaldo, da selecção nacional de futebol. Uma bailarina usa brincos de coração de filigrana do norte de Portugal.

São sete horas, mas o sol ainda brilha e a ameaça de chuvisco não passou de ameaça. As sardinhas parecem ter acabado, pois apenas bifes e salsichas podem ser vistos na grelha. Os últimos pães são vendidos ao público. Compro um antes de ir embora!

Migrações e migrantes nos media

Despedida de emigrantes portugueses (DN); Manifestação a favor de Refugiados na Alemanha (Reuters/Fabrizio Bensch); Centro de detenção imigrantes na ilha de Manus na Austrália (Reuters)

A análise dos media é uma tarefa de constextualização, cujo objectivo é ajudar a compreender as representações prevalentes dos migrantes e do temas das migrações e, por outro, as representações prevalentes dos contextos abrangidos pelo nosso projecto (Portugal, Angola, Austrália e Alemanha).

Em cada um dos países, foram seleccionados veículos imprensa escrita de acordo com a sua representatividade em termos de circulação, influencia na formação da opinião pública e tendência para reproduzir o conteúdo de outras publicações nacionais. As notícias foram consultadas nos sítios online dos jornais. O período abrangido pela recolha foi o decorrido entre Janeiro de 2017 a Junho de 2018.

A tarefa encontra-se ainda a decorrer, sendo que se encontra finalizada, em Portugal, a recolha e análise preliminar dos jornais Público e Diário de Notícias, dos quais se recolheram um total de 818 peças jornalísticas.

Os temas relacionados com migrações mais abordados por estes dois jornais foram, em primeiro lugar as políticas migratórias restritivas em países como os Estados Unidos, aItália e a Hungria, e em seguida os fluxos migratórios no mar Mediterrâneo. Ao nível nacional, os principais tema relacionados com a imigração foram  Vistos Gold e  regularização de imigrantes. Dentro da emigração, o protagonismo foi dado ao número de emigrantes, e atenção dada a algumas profissões.

A Austrália aparece em notícias relacionadas com a criminalidade, nomeadamente o terrorismo e a pedofilia. No universo das notícias relacionada com a Austrália, o tema das migrações surge sobretudo relacionado com a detenção ilegal de refugiadosNas notícias que retratam portugueses na Austrália, a aprticipação  em eventos de surf surge em destaque. Não existem notícias sobre australianos em Portugal.

Angola surge sobretudo em notícias relacionadas com a crise económica, a transição política entre Santos e Lourenço e a operação Fizz. Relativamente à migração em Angola, existem sobretudo notícias sobreas políticas migratórias do país. As notícias sobre Portugueses em Angola focam sobretudo as relações diplomáticas e económicasO número de notícias sobre Angolanos em Portugal é muito reduzido, sendo que estas focam o número de Angolanos que vivem em Portugal, e as dificuldades dos estudantes Angolanos em receberem dinheiro.

As notícias sobre a Alemanha, retratam o país com uma economia forte e com  influência na economia da Europa e de Portugal. As notícias sobre migrações na Alemanha focam sobretudo a criminalidade  contra imigrantes e reacionarismo relativamente à imigraçãopolíticas migratórias e refugiados. Os portugueses na Alemanha surgem reratados em notícias sobre enfermeiros e empresas portuguesas em feiras de negócios na Alemanha. As notícias sobre alemães em Portugal focam sobretudo empresas alemãs.

 

 

Histórias de migrantes em Berlim – pela Reuters

«Mais de um milhão de pessoas chegaram à Alemanha como migrantes desde 2015, sob a política de “portas abertas” da Chanceler Angela Merkel.»

Mas as políticas migratórias defendidas por Merkle tornaram-na impopular junto dos mais conservadores, e junto da cada vez mais poderosa extrema-direita, tanto na Alemanha como na União Europeia.

Em vésperas da eleição da sucessão de Angela Merkle no seu partido, que irá disputar as eleiçõe de 2021, a Reuters publicou no seu site de fotojornalismo, The Wider Image, uma reportagem que conta a história de três migrantes em Berlim: Ali Mohammad Rezaie do Afganistão, Haidar Darwish da Síria e Joseph Saliba, da Síria.

São histórias dos seus percursos de integração na cidade de Berlim.

Leia aqui! (em inglês)

16 AUG 2018. BERLIN, GERMANY. REUTERS/FABRIZIO BENSCH

Este e Oeste: onde vivem os imigrantes na Alemanha e em Berlim

Os estados mais ricos e industrializados do sudoeste da Alemanha são geralmente preferidos pelos imigrantes. Isto é visto como ainda estando relacionado com a divisão entre a Alemanha Oriental e Ocidental antes da unificação: para superar a escassez de trabalhadores vindos da Alemanha Oriental após a construção do Muro de Berlim em 1961, a Alemanha Ocidental estabeleceu acordos bilaterais com países do sul onde as taxas de desemprego eram altas, de modo que trabalhadores convidados (Gastarbeiter) desses países se mudassem e trabalhassem na indústria Alemã. Em 1964 o número de trabalhadores convidados ultrapassou o milhão. A intenção dos programas era a de que esses trabalhadores estrangeiros ficassem na Alemanha apenas temporariamente, mas estes, juntamente com as suas famílias, tornar-se-iam residentes permanentes.

Hoje em dia,  mais de metade da população migrantes portuguesa, onde se incluem migrantes de primeira e segunda geração, concentra-se nos estados de Nordrhein-Westfalen (26,1%), Baden-Württemberg (20,1%) e Hessen (10,5%).

Em Berlim, onde o Muro dividiu a cidade na Alemanha Oriental e Ocidental, podemos encontrar um microcosmo da Alemanha como um todo, com a parte oeste da cidade sendo mais afluente e cosmopolita do que a oriental. Relativamente à distribuição dos migrantes em Berlim, Mitte, no centro histórico, é o distrito com maior percentagem de imigrantes, tanto de primeira (a verde nos gráficos redondos do mapa) como de segunda geração (em azul escuro). Os distritos ocidentais de Charlottenburg-Wilmersdorf e Neukölln também apresentam altas taxas de população nascida no exterior, com os distritos de Marzahn-Hellersdorf e Treptow-Köpenick, no leste, tendo as taxas mais baixas. Os cidadãos da UE (dos quais excluímos os polacos devido ao seu maior peso relativamente a todas as outras nacionalidades) seguem geralmente esta tendência. Não existem números para os portugueses.

https://www.statistik-berlin-brandenburg.de/publikationen/Stat_Berichte/2018/SB_A01-05-00_2017h02_BE.pdf

Berlim: população migrante portuguesa com pouca representação feminina

De acordo com as estatísticas oficiais,  em 2017 Berlim tinha uma população superior a 3,5 milhões, dos quais um quarto era estrangeira.

Os países mais representados eram a Turquia (11,4%), a Polónia (11,4%) e a Itália (4,9%). Os nacionais dos países da União Europeia perfaziam 49% e os portugueses 1,7% do total de migrantes.

Berlim é o quinto estado alemão com maior população oriunda da União Europeia, e o quarto em termos da população portuguesa, com 10,2%, ou seja 14 905 do total de 146 810 portuguese que vivem na Alemanha.

No período contemporâneo os migrantes portugueses foram sobretudo instalar-se nos estados alemães mais afluentes e cosmopolitas do sudoeste do país, cujos núcleos industriais importaram a maioria da mão-de-obra portuguesa que chegou ao país nos anos 1960 e 1970 ao abrigo do programa de  trabalhadores-convidados (Gastarbeiterprogramm).

Relativamente a Berlim, a cidade viu a sua população portuguesa crescer de forma estável desde a queda do Muro de Berlim até 2017, ano em que, já no período de recuperação da crise que proliferou o desemprego no sul da Europa, o número de migrantes portugueses triplicou relativamente ao ano de 2016. No entanto, enquanto que a população feminina duplicou para 3 210, a população masculina quadruplicou e chegou aos 11 695, fazendo com que a população feminina representasse apenas 22% do total de migrantes portugueses em Berlim. A proporção de mulheres migrantes é significativamente maior no total da população imigrante e entre Alemães.

Este aumento significativo recente da população portuguesa em Berlim, assim como a tímida representação feminina são dados relevante na caracterização da população portuguesa em Berlim, que abre questões e suscita hipóteses a serem testadas no decorrer da nossa investigação.

BI Alemanha: alguns indicadores de emigração e imigração

Estima-se que seis milhões de pessoas deixaram a Alemanha entre 1820 e 1920. Uma grande parte emigrou para os EUA. Porém, com o crescimento económico decorrente da Revolução Industrial e da incursão no comércio internacional, o número de imigrantes no país ultrapassou o número de alemães que partiram.

Nos anos 50 e 60 do século XX, o modelo tradicional de recrutamento e emprego temporário de trabalhadores estrangeiros, contemplou países tais como: Itália (1955), Grécia e Espanha (1960), Turquia (1961), Marrocos (1963), Portugal (1964), Tunísia (1965) e antiga Jugoslávia  (1968). Embora os números da imigração permanecessem modestos durante os anos 80, rapidamente voltaram a crescer no início dos anos 90.

Contrariamente a Portugal que é o país da União Europeia com menos imigrantes, a Alemanha é o país na Europa, e o segundo no mundo, depois dos EUA, com o maior número de imigrantes. Em 2015, de acordo com a ONU, apresentava uma taxa de imigração de 14.5%, contra uma taxa de emigração de 4,9%.

Entre os principais países de destino, 40% dos emigrantes alemães escolheram os EUA, 23% a Suíça e 21% o Reino Unido. Portugal representou apenas 2% desses fluxos em 2015. Apesar disso, de 2010 a 2015, o número estimado de alemães em Portugal aumentou, o que pode indicar uma tendência crescente (ONU, 2015).

Segundo o Destatis, 82,7 milhões de pessoas viviam na Alemanha em 2017. No mesmo ano, a taxa de imigração correspondia a 12,9%. No que diz respeito à população imigrante na Alemanha, a Turquia (14%), a Polónia (8,2%) e a Síria (6,6%) constituíram os três principais países de origem. Os portugueses representavam apenas 1,4% (146 810) dos imigrantes residentes, sendo que 25% chegou nos últimos oito anos (Destatis, 2017).

Dos 10,6 milhões de imigrantes a viver no país, 13% nasceu na Alemanha, embora não tenha nacionalidade alemã. Por exemplo, 28% dos turcos residentes nasceram na Alemanha, assim como 24% dos italianos e 21% dos sérvios. Entre os imigrantes portugueses, a percentagem não ultrapassa os 16% de nascidos em território alemão.

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