Transits

cultura material, migrações e vida quotidiana

Autor: transits (página 1 de 2)

Notas do campo – Berlim #2, Sardinhada em Berlim

Na semana passada fui ao baby shower de uma das nossas famílias participantes em Berlim. Em conversa com portugueses, soube que no fim de semana seguinte haveria uma festa portuguesa no Parque Monbijou, no centro de Berlim. Não obtive mais detalhes no momento, mas uma rápida pesquisa na internet conduziu-me ao  evento no facebook. 

Tratava-se, na verdade, uma sardinhada,  um evento muito sazonal, particular desta época do ano em portugal.  A temporada de pesca da sardinha começou há algumas semanas e junho é o mês em que ocorrem várias festas em homenagem a Santo Antônio, São João ou São Pedro (os santos populares) em muitos locais do país. As festas incluem fogueiras, e sardinhas assadas no pão, ao som de  música pimba

A view of the picnic at Monbijou park, with the grilling station at the back.

No entanto, a sardinhada em Monbijou não parecia querer reproduzir as festas dos santos populares em Portugal. Não havia música a tocar alto, assinalando o evento à distância. O evento parecia mais um grande piquenique, com um stand ao lado do grelhador vendendo comida e bebida, e as pessoas sentadas em grupos nas mantas trazidas de casa. Os churracos são permitidos na maioria dos parques em Berlim, havendo sinaletica indicando as áreas específicas onde são permitidos. Este é um dos muitos usos que os berlinenses dão aos parques. Outros usos incluem banhos de sol (frequentemente em fato de banho), sentar em cadeiras dobráveis ​​a tomar bebidas enquanto se contempla uma paisagem, pendurar redes em árvores e nelas se deitar, jogar jogos de grupo, etc. Os parques parecem definir a vida pública de Berlim e os estilos de vida dos seus habitantes. E se isto for verdade, então não poderia ser mais verdade do que neste mês muito quente de junho.

Estaciono a minha bicicleta e ando entre a multidão. Português, alemão, italiano e espanhol são idiomas que podem ser ouvidos falar por pessoas de todas as idades. Entro na fila para comprar comida. Atrás de mim, duas mulheres de meia-idade falam português do Brasil, à minha frente, duas mulheres na faixa dos 20 anos que usam o youtube nos seus smartphones para mostrar um amigo que fala inglês, o que é e como soa a música pimba.

Sardines and German sausages. Portuguese rock salt.

Beer ans soft drinks on ice.

Apron.

Da grelha, vão saíndo não só as habituais sardinhas e bifanas, mas também salsichas de tipo alemão, que não são tradicionalmente encontradas nas sardinhasdas que tenho como referência. Adaptação da sardinhada ao ambiente de Berlim? Peço duas sardinhas em pão de trigo, embora também esteja disponível o pão de milho. Acompanho com um Sumol de ananás fresco dos alguidares de gelo com cervejas e refrigerantes portugueses. Também há vinho tinto e branco portugueses.

A senhora que fatia o pão interrompe a sua tarefa para saudar uma amigo que lhe entrega um avental com a palavra Portugal bordada, o que provoca uma imediata reação das suas colegas que também exigem a mesma oferta, em tom de brincadeira. As bebidas e os alimentos foram fornecidos por um supermercado português em Berlim, e o pão por uma padaria greco-portuguesa, ambos publicitados. Foi-me dito que em anos anteriores eram vendidos também pastéis de nata, mas para minha decepção, tal não acontece este ano.

Começam a realizar-se oficinas de bombos de dez em dez minutos, o que faz com que a festa finalmente tenha música ambiente! Mais tarde, um rancho também se apresenta num cruzamento de alcatrão dentro do parque. Os membros do rancho parecem ser todos portugueses ou seus descendentes, e as idades parecem ir dos vinte aos sessenta. Duas meninas que parecem ter menos de cinco anos, também participam às vezes, guiadas pelos bailarinos mais velhos. Os membros do rancho não vestem as tradicionais roupas de rancho, mas em vez disso envergam as suas próprias roupas. Um bailarino veste uma t-shirt de Cristiano Ronaldo, da selecção nacional de futebol. Uma bailarina usa brincos de coração de filigrana do norte de Portugal.

São sete horas, mas o sol ainda brilha e a ameaça de chuvisco não passou de ameaça. As sardinhas parecem ter acabado, pois apenas bifes e salsichas podem ser vistos na grelha. Os últimos pães são vendidos ao público. Compro um antes de ir embora!

Kathy Burrell no ICS este mês

Cartas do terreno: Lisboa #1, Cityscapes

Image of a stylised map of central Lisbon; Source unknown

Nos meus 2 posts anteriores sobre Lisboa, apresentei a migração em relação ao turismo e em relação ao colonialismo. Neste blog post, vou apresentar Lisboa como cidade ao iniciar o trabalho de campo etnográfico como parte deste projeto de pesquisa, o TRANSITS.  Chegada à cidade e ao país no final do ano passado, ofereço as impressões pessoais de uma migrante.

Lisboa é a capital de Portugal, embora talvez não tão movimentada quanto muitas capitais do mundo. De fato, a vida aqui move a passos lentos, a um ritmo em que tomar um café talvez seja mais importante do que chegar a tempo para uma reunião agendada. Isso pode ser lindo e, ao mesmo tempo, desconcertante para um estranho. A pessoa acostuma-se e aprende a apreciar esses aspetos mundanos da vida quotidiana nesta cidade em crescimento.

A cidade em si é parte de uma região ou distrito mais amplo, e parece crescer de uma pequena área “baixa”, enquanto o rio Tejo se contrai para dentro. Este centro da cidade está repleto de encostas que causam dores nas pernas e belas vistas de onde se pode apreciar a paisagem urbana. Esta área em si dificilmente é habitada, exceto pelos turistas que se substituem uns aos outros continuamente, e os numerosos novos cafés e restaurantes sofisticados (“hipster”). Aqui, há muitas compras para fazer e muitas fotos para tirar.

Images by author (Sinead D’Silva)

Ao longo da costa, para dentro, as áreas de escritórios da “Expo”, ou Parque das Nações, refletem uma área comercial diferente de Lisboa – não é tão dedicada ao turismo, mas reflete alguma parte da agitação esperada de uma cidade capital. À medida que a cidade se estende para o Oceano Atlântico, as áreas residenciais tornam-se mais comuns. Uma mistura de casas intencionais construídas durante o Estado Novo e novos empreendimentos saúdam-nos, uma mudança dos pitorescos edifícios emblemáticos do centro da cidade.

Mais longe no comboio na Grande Lisboa, as paisagens residenciais tornam-se mais visíveis, por vezes necessitando de manutenção; e a agitação da cidade desaparece. Mais adiante, percebe-se uma mudança na paisagem revelando diferenças de classe sociais. Indo daqui para norte é-se cumprimentado por quintas e montanhas. Chegamos a Sintra. Continuando ao longo da costa, encontramo-nos em Cascais, um local moderno à beira-mar. Do meu ponto de vista, percebe-se também uma sugestão de mais dinheiro no ar, às vezes observável através dos trajes e sotaques. É interessante notar como a cidade parece ser etnicamente diversa, o que para as cidades europeias parece surpreendente. Porem, quando a cidade repousa, os diferentes lugares a que as pessoas chamam de lar sugerem uma disparidade de classe racial.

Images by author (Sinead D’Silva)

Esta é a paisagem urbana de Lisboa. Ao navegá-la, já descobri que outros a navegam de forma diferente.

Migrações e migrantes nos media

Despedida de emigrantes portugueses (DN); Manifestação a favor de Refugiados na Alemanha (Reuters/Fabrizio Bensch); Centro de detenção imigrantes na ilha de Manus na Austrália (Reuters)

A análise dos media é uma tarefa de constextualização, cujo objectivo é ajudar a compreender as representações prevalentes dos migrantes e do temas das migrações e, por outro, as representações prevalentes dos contextos abrangidos pelo nosso projecto (Portugal, Angola, Austrália e Alemanha).

Em cada um dos países, foram seleccionados veículos imprensa escrita de acordo com a sua representatividade em termos de circulação, influencia na formação da opinião pública e tendência para reproduzir o conteúdo de outras publicações nacionais. As notícias foram consultadas nos sítios online dos jornais. O período abrangido pela recolha foi o decorrido entre Janeiro de 2017 a Junho de 2018.

A tarefa encontra-se ainda a decorrer, sendo que se encontra finalizada, em Portugal, a recolha e análise preliminar dos jornais Público e Diário de Notícias, dos quais se recolheram um total de 818 peças jornalísticas.

Os temas relacionados com migrações mais abordados por estes dois jornais foram, em primeiro lugar as políticas migratórias restritivas em países como os Estados Unidos, aItália e a Hungria, e em seguida os fluxos migratórios no mar Mediterrâneo. Ao nível nacional, os principais tema relacionados com a imigração foram  Vistos Gold e  regularização de imigrantes. Dentro da emigração, o protagonismo foi dado ao número de emigrantes, e atenção dada a algumas profissões.

A Austrália aparece em notícias relacionadas com a criminalidade, nomeadamente o terrorismo e a pedofilia. No universo das notícias relacionada com a Austrália, o tema das migrações surge sobretudo relacionado com a detenção ilegal de refugiadosNas notícias que retratam portugueses na Austrália, a aprticipação  em eventos de surf surge em destaque. Não existem notícias sobre australianos em Portugal.

Angola surge sobretudo em notícias relacionadas com a crise económica, a transição política entre Santos e Lourenço e a operação Fizz. Relativamente à migração em Angola, existem sobretudo notícias sobreas políticas migratórias do país. As notícias sobre Portugueses em Angola focam sobretudo as relações diplomáticas e económicasO número de notícias sobre Angolanos em Portugal é muito reduzido, sendo que estas focam o número de Angolanos que vivem em Portugal, e as dificuldades dos estudantes Angolanos em receberem dinheiro.

As notícias sobre a Alemanha, retratam o país com uma economia forte e com  influência na economia da Europa e de Portugal. As notícias sobre migrações na Alemanha focam sobretudo a criminalidade  contra imigrantes e reacionarismo relativamente à imigraçãopolíticas migratórias e refugiados. Os portugueses na Alemanha surgem reratados em notícias sobre enfermeiros e empresas portuguesas em feiras de negócios na Alemanha. As notícias sobre alemães em Portugal focam sobretudo empresas alemãs.

 

 

 

 

 

Migração para Portugal: Uma breve história do colonialismo

No primeiro post do blog sobre a migração para Portugal, tentámos traçar as tendências recentes na migração com o turismo, como um caminho que facilita o mesmo. O objetivo era destacar as maneiras pelas quais a ideia de uma economia idílica, relaxada, barata e ainda em desenvolvimento resulta em pessoas atraídas pela geografia. No entanto, esta não é a única causa, e a migração não é nova para Portugal. Desde os anos 1400, Portugal foi um país colonizador e permaneceu assim até o final dos anos 1900. Foi somente em 1974 que a descolonização como um processo foi iniciada, após o derrube da ditadura de quase 50 anos através do que veio a ser chamado de Revolução dos Cravos. A colonização portuguesa contemplou o movimento de pessoas e coisas entre colónias e o colonizador.

Alimentados pela riqueza da Igreja Católica e da nobreza, navios portugueses zarparam dos portos do país e da vizinha Espanha, começando primeiro pelo continente africano. As principais agendas eram, portanto, conversão (ao catolicismo) e comércio. Assim, houve um fluxo sistemático de pessoas na direção das colónias para fins de governar e extrair recursos. No entanto, outro aspecto era importante para o comércio, o do “comércio” de trabalho, ou seja, os humanos, particularmente do continente africano, no chamado Tráfico de Escravos. Lisboa viu a primeira “remessa” de escravos chegar das chamadas “descobertas” no continente africano em 1441. O tráfico de escravos nada mais era do que uma afirmação de poder para ajudar a construir nações com base na supremacia branca racista, e Portugal registrou o maior número de pessoas traficadas.

Ao longo dos anos, e sob a crença de que Portugal não tinha “colónias”, mas sim extensões do mundo português, houve movimentos significativos de pessoas, em grande parte da Europa para as colónias, mas também vice-versa. O objetivo do colonialismo português era construir uma cultura portuguesa através da geografia, feita substituindo a cultura e a língua locais. No entanto, isto subsequentemente se transformou numa oportunidade para os países de língua portuguesa manterem alguns laços entre si.

O colonialismo continua a ser uma parte contestada da história portuguesa. Em Lisboa, as propostas recentes para construir um museu do colonialismo foram um ponto de debate entre os estudiosos do país, alguns dos quais escreveram uma carta aberta condenando tal movimento pelo potencial de glorificar o colonialismo. A própria cidade de Lisboa já venera o seu passado colonial através do monumental Monumento das Descobertas e dos seus avanços marítimos através do Museu Marítimo na capital e noutras partes do país, não se limitando à costa sul do Algarve. No início de 2018, um monumento memorial para aqueles que sofreram com a escravidão também foi contestado, sugerindo que o colonialismo português era relativamente tímido. Ao contrário do colonialismo espanhol, que empregava o massacre como seu modus operandi, Portugal usou a assimilação para obter o controle das suas colónias. Neste momento, Portugal tenta redimir-se do colonialismo, estendendo o apoio aos migrantes que chegam através do que foi chamado recentemente de “Crise dos Refugiados” na Europa. Os efeitos a longo prazo desta tentativa de construir uma economia em recuperação ainda estão para ser vistos.

O debate sobre migração em Portugal não é, portanto, novo. Existem modos multifacetados em que Portugal se apresenta como um destino para os migrantes. É contra este pano de fundo que devemos considerar os movimentos das pessoas e entender quem ocupa que aspecto da vida em Portugal. As nacionalidades propostas para este estudo oferecem uma diversidade única de economias tipicamente mais ricas. A retórica da migração é muitas vezes focada em fluxos Sul-Norte, com uma noção de que os pobres do Sul se movem por razões económicas ou sociais para o Norte “rico”. Pouca atenção é dada ao movimento das elites para o norte, por exemplo, e às complexidades em relação a quem viaja de onde e com que finalidade.

Histórias de migrantes em Berlim – pela Reuters

«Mais de um milhão de pessoas chegaram à Alemanha como migrantes desde 2015, sob a política de “portas abertas” da Chanceler Angela Merkel.»

Mas as políticas migratórias defendidas por Merkle tornaram-na impopular junto dos mais conservadores, e junto da cada vez mais poderosa extrema-direita, tanto na Alemanha como na União Europeia.

Em vésperas da eleição da sucessão de Angela Merkle no seu partido, que irá disputar as eleiçõe de 2021, a Reuters publicou no seu site de fotojornalismo, The Wider Image, uma reportagem que conta a história de três migrantes em Berlim: Ali Mohammad Rezaie do Afganistão, Haidar Darwish da Síria e Joseph Saliba, da Síria.

São histórias dos seus percursos de integração na cidade de Berlim.

Leia aqui! (em inglês)

16 AUG 2018. BERLIN, GERMANY. REUTERS/FABRIZIO BENSCH

Migração para Portugal: a turistificação de Lisboa

Passaram 10 anos desde a crise financeira europeia de 2008. Em 2011, o pedido de Portugal de assistência financeira através de empréstimos no valor de 78 mil milhões de euros da UE e do FMI veio com directivas da Troika para implementar medidas de austeridade. Sob o governo de direita, essas políticas foram implementadas rapidamente, apesar do efeito incapacitante que teria sobre a população, originado também pelo corte de gastos em serviços públicos, incluindo saúde. A insatisfação com tais políticas foi particularmente visível na onda de protestos em Lisboa.

As repercussões da crise refletiram-se em medidas de austeridade implementadas no país, deslocando muitas pessoas em busca de empregos para outros países da UE ou para mais longe. No entanto, após a eleição de um governo socialista de esquerda, o afastamento da austeridade teria provocado uma melhora drástica na economia. Em 2017, Portugal havia reembolsado os seus empréstimos de resgate. A rejeição da austeridade e o investimento em empresas sociais ajudou a melhorar a situação. Concomitantemente, foi também o florescimento de outra indústria que apoiou esta mudança, nomeadamente o turismo. Em 2017, Portugal registou 12,7 milhões de turistas internacionais, um terço dos quais em Lisboa. Lisboa, em particular, tornou-se um centro de atracção não só para os que procuram lazer, mas também para quem procura emprego no sector do turismo. O custo de vida relativamente baixo, comparado ao restante da Europa Ocidental, é outro ponto de atração. Lisboa continua a atrair jovens em massa que optam por ficar por períodos prolongados de tempo devido ao fascínio do local. Simultaneamente, os jovens portugueses já abandonavam o país em busca de empregos mais bem remunerado mesmo antes da crise. Este declínio na população do país deu origem a que o primeiro ministro, Antonio Costa, tenha pedido um empurrão na imigração para o país, particularmente de mão de obra qualificada.

Apesar das implicações positivas do turismo que, aparentemente, resultam em imigração para o país por longos períodos de tempo, essas mudanças também vêm com alguns avisos. À medida que as pessoas migram e visitam a cidade, levantam-se questões sobre a sustentabilidade de tal indústria, incluindo se o país considerou problemas de excesso de turismo. De qualquer modo, Portugal emergiu da crise. Resta saber se o turismo levará o país a um utópico ou distópico “admirável mundo novo”.

Portugueses em Angola: o que mostram as estatísticas*

Protagonizados por imigrantes com diferentes perfis socioprofissionais, económicos, culturais, etc., os fluxos migratórios para Angola acentuaram-se a partir dos anos de 1990 com a abertura de uma economia dita de mercado e com os Acordos de Bicesse, cujas medidas facilitaram a circulação migratória em território angolano. Similarmente, a falta de mecanismos fronteiriços de controlo[1]face à migração ilegal, a formação de redes migratórias que atuam como elemento de intermediação entre os atores individuais ou pequenos grupos e as forças estruturais de atração, e a crise europeia e mundial dos últimos anos, inscrevem-se como fatores que não só apoiaram como estimularam novos fluxos migratórios para Angola.

A partir de 2002 com o terminar da guerra civil e, posteriormente, com a crise financeira mundial de 2008 e a tão falada crise na Europa intensificaram-se e diversificaram-se num contexto mais vasto de fluxos migratórios globalizados. Atualmente com o abrandamento da economia angolana, num ambiente (de crise financeira e cambial) marcado desde meados de 2014 pela quebra na procura e descida dos preços do petróleo e pela falta de investimento noutras áreas, com consequências na tomada de medidas de contenção da despesa pública, investimentos parados, restrições de acesso ao dólar, desvalorização do Kwanza, dificuldades em transferir dinheiro para fora de Angola, atrasos nos salários e nos pagamentos a fornecedores, etc., já se fala numa eventual diminuição dos fluxos migratórios.

No contexto global dos novos emigrantes portugueses, Angola configurou-se como um dos destinos preferenciais de muitos portugueses que migraram para fora da União Europeia, atraindo dezenas de milhares de trabalhadores nos últimos anos. Estima-se, tendo em conta a média anual dos fluxos entre 2008-2012, que 10 a 12% tiveram como destino Angola e Moçambique, 80 a 85% a Europa e 1% o Brasil (Pires, Pereira, Azevedo e Ribeiro 2014:37).

Os números referentes aos registos no Consulado Geral de Portugal em Luanda e Benguela, aqui delimitados a um período de 10 anos, mostram que o número de inscritos de 2008 a 2015 manteve uma tendência de crescimento, tendo passado de mais de 72 mil, em 2008, para mais de 134 mil, em 2015.

Registos consulares de 2008 a 2017

Gráfico elaborado pelo projeto “Trânsitos”, valores do Observatório da Emigração

Continuando a analisar a evolução da emigração de portugueses para Angola, mas agora com base em dados relativos ao número de vistos emitidos pelo Consulado Geral de Angola em Lisboa e no Porto, confirma-se que os portugueses continuaram a ir mesmo com a crise económica que desde 2014 se instalou nesse país:

Entradas de portugueses em Angola

Ano N Taxa de Crescimento 
2013 4651 _
2014 5098 9,6%
2015 6715 31,7%
2016 3908 -41,8%
2017 2962 -24,2%

Gráfico elaborado pelo projeto “Trânsitos”, valores do Observatório da Emigração

Contrariando algumas expetativas, a emigração portuguesa para Angola cresceu cerca de 32% em 2015. Porém desceu expressivamente de 2015 para 2016, perto de 42% (- 2.807 entradas) e de 2016 para 2017 (-24%). Os efeitos cumulativos e prolongados da crise em Angola, influenciando diretamente um menor número de entradas e um maior número de saídas, ajudar-nos-ão a compreender estes dados.

Estudos escasseiam, mas a emigração de portugueses para Angola tem-se acentuado e os perfis socioeconómicos, culturais, etc., diversificado. Para além dos investidores e empresários, existem ainda muitos trabalhadores portugueses expatriados em Angola, no âmbito de propostas de trabalho e projetos migratórios muito variados (procura de novas ou melhores oportunidades, desemprego…). Interessa-nos explorá-los e discuti-los na extensão das dimensões materiais dos movimentos contemporâneos.

____

* Os números dos registos consulares sobre a emigração portuguesa para Angola devem ser lidos com precaução. Não só o registo não é obrigatório, como a sua atualização comporta algumas a fragilidades de manutenção. Já o número dos inscritos nos consulados portugueses em Angola de pessoas nascidas em Portugal só está disponível para o ano de 2013, ano onde se contabilizou 38.994 inscritos. Um número muito aquém dos anunciados nos media, cerca de 100 a 200 mil ou mais.
[1] Por exemplo a extensa fronteira com a RDC, país que partilha fronteira com sete (Cabinda, Zaire, Malanje, Uíge, Lunda Norte, Lunda Sul e Moxico) das 18 províncias de Angola, tem sido porta de entrada para muitos migrantes ilegais originários sobretudo da RDC e do oeste africano.

Portugueses na Austrália: cerca de metade da população migrante portuguesa reside na grande Sydney

A maioria dos australianos continua a viver nos estados continentais da costa leste do país. Em 2016, aproximadamente 77% viviam em Nova Gales do Sul (32%), Victoria (25%) e Queensland (20%) (Censo, 2016). De acordo com o Censo de 2016, o estado de Nova Gales do Sul, que tem Sydney como capital, continua a ser o território mais popular para se viver tanto para o total da população residente nascida no exterior (34%), quanto para os imigrantes portugueses (53%).

Local de Residência (estados)

Gráfico elaborado pelo projeto “Trânsitos”, valores de Australian Bureau of Statistics – Census 2016

A primeira vaga de migrantes portugueses ocorreu durante a década de 50 do século XX, maioritariamente com habitantes da Ilha da Madeira em direção a Fremantle, na Austrália Ocidental. Desde então, Perth e a Austrália Ocidental, em geral, têm sido um destino frequente para estudantes e trabalhadores qualificados portugueses, o que explica a maior presença deste grupo neste estado em comparação com a população australiana e a população nascida no exterior como um todo.

 Portugueses – Ano de chegada a Nova Gales do Sul, Austrália  

Gráfico elaborado pelo projeto “Trânsitos”, valores de Australian Bureau of Statistics – Census 2016

Em 2016, a maioria dos migrantes portugueses continua a viver em Nova Gales do Sul (53%), dos quais 82% residiam na grande Sydney. Muitos deles chegaram ao estado entre 1966 e 1975 (39%) e continuaram a chegar nas décadas seguintes: 1976-1985 (18%) e 1986-1995 (21%). Na viragem do século, a chegada de migrantes portugueses diminuiu acentuadamente (3,7%). No entanto, em meados da primeira década do século XXI, a chegada de portugueses voltou a aumentar (10%). O aumento recente e significativo da população portuguesa em Nova Gales do Sul é evidente e crucial para a nossa pesquisa, abrindo novas questões sobre a configuração, projetos e aspirações destes recém-chegados.

Este e Oeste: onde vivem os imigrantes na Alemanha e em Berlim

Os estados mais ricos e industrializados do sudoeste da Alemanha são geralmente preferidos pelos imigrantes. Isto é visto como ainda estando relacionado com a divisão entre a Alemanha Oriental e Ocidental antes da unificação: para superar a escassez de trabalhadores vindos da Alemanha Oriental após a construção do Muro de Berlim em 1961, a Alemanha Ocidental estabeleceu acordos bilaterais com países do sul onde as taxas de desemprego eram altas, de modo que trabalhadores convidados (Gastarbeiter) desses países se mudassem e trabalhassem na indústria Alemã. Em 1964 o número de trabalhadores convidados ultrapassou o milhão. A intenção dos programas era a de que esses trabalhadores estrangeiros ficassem na Alemanha apenas temporariamente, mas estes, juntamente com as suas famílias, tornar-se-iam residentes permanentes.

Hoje em dia,  mais de metade da população migrantes portuguesa, onde se incluem migrantes de primeira e segunda geração, concentra-se nos estados de Nordrhein-Westfalen (26,1%), Baden-Württemberg (20,1%) e Hessen (10,5%).

Em Berlim, onde o Muro dividiu a cidade na Alemanha Oriental e Ocidental, podemos encontrar um microcosmo da Alemanha como um todo, com a parte oeste da cidade sendo mais afluente e cosmopolita do que a oriental. Relativamente à distribuição dos migrantes em Berlim, Mitte, no centro histórico, é o distrito com maior percentagem de imigrantes, tanto de primeira (a verde nos gráficos redondos do mapa) como de segunda geração (em azul escuro). Os distritos ocidentais de Charlottenburg-Wilmersdorf e Neukölln também apresentam altas taxas de população nascida no exterior, com os distritos de Marzahn-Hellersdorf e Treptow-Köpenick, no leste, tendo as taxas mais baixas. Os cidadãos da UE (dos quais excluímos os polacos devido ao seu maior peso relativamente a todas as outras nacionalidades) seguem geralmente esta tendência. Não existem números para os portugueses.

https://www.statistik-berlin-brandenburg.de/publikationen/Stat_Berichte/2018/SB_A01-05-00_2017h02_BE.pdf

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