Transits

cultura material, migrações e vida quotidiana

Autor: transits (página 1 de 3)

Cartas do terreno, Berlim #4: vida de bairro e compras

Certo serão em casa, no início da minha estadia em Berlim, apeteceu-me comer um doce. Como não tinha nada suficientemente decadente em casa, resolvi sair de casa e ir até ao Späti mais proximo comprar um chocolate. O Späti, ou na sua formulação completa, Die Spätkauf, é um tipo de loja de conveniência em Berlim, que permanece aberta um pouco fora de horas.  

No caminho para lá, aproveitei para fazer um telefonema. Entrei no Späti ainda ao telefone e  fui-me demorando, entre a distração com o que estava a ser dito do lado de lá da linha e a própria indecisão na escolha do chocolate.  A determindada altura, o senhor que se encontrava por detrás do balcão disse, com ar zangado, algo que não compreendi; com gestos, pareceu mandar-me sair e terminar o telefonema na rua. Eu interrompi a chamada e troquei algumas palavras pouco simpáticas com o senhor.  No entanto, não saí da loja sem antes comprar o chocolate porque na realidade não tinha alternativa àquela hora da noite.

Quando cheguei a casa e contei o sucedido às minhas co-habitantes alemãs, a resposta que obtive foi que, na realidade, a minha atitude tinha sido desrespeitosa, na medida em que “na Alemanha, as pessoas que estão atrás do balcão querem ser tratadas como pessoas” e não ignoradas, como foi o caso. Apercebi-me que, apesar de ter dito um distraído e talvez pouco perceptível hallo! ao entrar na loja, ter estado o tempo todo ao telefone sem tentar estabelecer uma conversa de circunstância com o senhor do Späti, tinha sido uma atitude que para além de mal-educada, tinha sido impessoal demais para aquilo que seria expectável no contexto. A ideia que eu tinha de que o anonimato e a impessoalidade no trato seriam algo normal numa cidade da dimensão de Berlim, acabou por provar-se absolutamente errada.

O Spati é uma loja de conveniência, onde se compram os jornais e revistas, a lotaria, o ocasional refrigerante ou cerveja, uma refeição rápida, um chocolate ou aperitivo salgado, ou se levantam as encomendas da DHL. Tanto a loja em si, como a pessoa que está atrás do balcão e que normalmente é o dono do estabelecimento, são vistos como uma instituição do bairro. Quando continuei a contar sobre a troca de palavras desagradáveis entre mim e o Spati, uma das minhas interlocutoras encarou-me com algum choque e descrença, como se eu tivesse cometido uma heresia e disse “oh, não, tu não te queres meter com o Spati”,  provando o poder simbólico da instituição na sociedade berlinense.

Um Späti (com a estação local da DHL) no meu bairro.

Apesar de ser uma cidade grande, Berlim tem nos bairros o centro da vida quotidiana dos seus habitantes. Uma das coisas que salta à vista quando se passeia pelos vários distritos de Berlim, é que não existe uma separação clara entre zonas residenciais, zonas de trabalho, zonas comerciais e zonas de lazer. Tenho vindo a observar no bairro onde eu própria vivo, quea rua mantem-se dinâmica ao longo de todo o dia, seja pelo comércio tradicional e pequenos negócios,  seja pelas infraestruturas que permitirem que as pessoas não precisem de se afastar muito do edifício onde habitam para viver as suas vidas. 

Zona central do meu bairro, com o parque infantil e mesa de ping-pong em segundo plano, e zona de bancos em frente à farmácia, em primeiro plano.

O convívio entre vizinhos no espaço público é uma constante. Os espaços verdes marcam a paisagem. Nos jardins e parques, pessoas sentam-se e conversam enquato bebem uma cerveja ou partilham uma garrafa de vinho, e fazem-se festas de aniversário e barbecues nos relvados entre grupos maiores.  Os parques infantis, com zonas de baloiços e de areia são o ponto de encontro de pais e filhos pequenos ao fim de semana mas também durante a semana. As crianças brincam descalças com pás e baldes na areia; os pais, sentados nos bancos ou no chão, conversam entre si enquanto vigiam as crianças. O lado de fora das geladarias são também locais de convivio entre pais e filhos.

Geladaria em Prenzlauer Berg.

Outro espaço tradicional do bairro é a padaria, em alemão Bäckerei. É onde se compra o pão no dia-a-dia. A padaria vende uma variada de pães e bolos, mas também serve café, sumos, e refeições rápidas que se podem tomar ao pequeno almoço, como ovos e salsishas. Vende também alguns bens essenciais que não podem faltar num lar berlinense,  como ovos, leite ou manteiga. Co-existem com as tradicionais, as padarias mais gourmet, em zonas bairros mais afluentes ou gentrificados. Estas anunciam a venda de pão “sour dough” (massa lêveda), o uso de farinhas orgânicas ou biológicas, e oferecem o mesmo tipo de refeições pequenas que as padarias tradicionais, mas feitas com ingredientes mais selectivos e caros, como o abacate.

Fazem ainda parte da rede de comércio de proximidade a farmácia,  os pubs que vendem exclusivamente bebidas ou o ocasional schnitzel,  os cafés onde se pode encontrar pequenos grupos apreciando o seu Kaffee und Kuchen,  os pequenos restaurantes e cabeleireiros. Esta rede parece ser muito valorizada tanto pelos moradores mais antigos, como pelos mais novos, alemães ou estrangeiros. Entre os empregados – que podem muito bem, ser os donos do negócio – e os clientes, há a troca de cumprimentos e conversas curtas mas amistosas, e ouvem-se as novidades do bairro.

Padaria em Lichtenberg. Direitos reservaods.

Saindo do coração dos bairros chega-se em poucos minutos a uma artéria principal, onde o tipo de comércio, apesar de continuar fisicamente próximo, ganha outra dimensão. Estas ruas mais movimentadas e avenidas constituem aquilo que os britânicos chamam de high street. Lá encontramos a drogaria, uma referência nas compras quotidianas. A DM e a Rossmann são as cadeias de drogaria mais conhecida e que se encontram em maior número. Nelas normalmente se compram os itens de higiene pessoal e do lar. Existem também a secção de maquiagem, de revelação de fotografias, de roupa e outros artigos para bebé, e de comida com tendencia mais biológica, normalmente mais barata que os supermercados biológicos.

Os hipermercados encontra-se também na high street. Com ou sem parque de estacionamento de carros e sendo este parque de estacionamento maior ou mais pequeno, a verdade é que em Berlim priveligia-se o caminhar ou a bicicleta, pois nesta continuidade entre zonas residenciais e de comércio, as distâncias nunca são grandes. A gama de hipermercados é variada: desde os hipercados de desconto como Netto, Penny, Aldi ou Lidl, até aos hipermercados tradicionais como o Edeka, Rewe ou Kaufland. Com os produtos de higiene comprados na drogaria, as compras nos supermercados cinjem-se à alimentação.

Os já também tradicionais supermercados turcos, localizados tanto nas zonas residenciais como nas artérias principais, possuem normalmente um chamaitivo stand de frutas e legumes no lado de fora da loja. No seu interior, priveligiam-se os produtos vindos do médio oriente, as pastas frescas para barrar no pão, e o espesso iogurte turco, que a par das frutas e legumes, atraem também o público não árabe.

Supermercado turco em Treptow.

Os supermercados biológicos também podem ser de comércio tradicional nos coração dos bairros, ou de cadeia na high street. Assim como as drogarias, os hipermercados e os supermercados turcos, existem supermercados biológicos de cadeia em todas as artérias principais. As cadeias mais conhecidas são Bio Company, Denn’s, Alnatura ou LPG. Nestes supermercados, priveligiam-se as frutas e legumes, assim como os lacticínios e os ovos, não só por serem de origem biológica, mas também por oferecerem opções de origem local ou regional.

Opção de tomate regional em supermercado biológico.

Durante o trabalho de campo em Berlim, tem sido interessante de observar e conversar com os nossos participantes, sobre os modos como esta cultura de bairro e de comércio de proximidade altera os hábitos de consumo dos migrantes portugueses em Berlim.  Para saber mais sobre isso, fiquem atentos ao TRANSITS.

Até à próxima!

Diana

Cartas do terreno: Luanda #2 Análise dos media angolanos

No âmbito do projecto Transits, decidiu-se proceder a um levantamento de conteúdo mediático junto de fontes de imprensa escrita, nomeadamente as disponíveis online. A sua análise leva em conta as representações propagadas pelos media acerca da condição de “migrante” e em volta de noções como “migrante”, “emigrante”, “imigrante”, “expatriado”, entre outras.

Procura-se explorar de que forma as migrações e os migrantes são representados na esfera pública, com especial enfoque para os fluxos de e para Berlim, Luanda, Lisboa e Sydney, bem como o grau e o tipo de aceitação/hostilidade face à sua presença nos contextos em análise. O tipo de notícia que os órgãos de imprensa selecionados privilegiam sobre os contextos em análise também é lavado em conta.

Na imprensa angolana, foram selecionados os jornais diários Jornal de Angola e O País. O período de análise contemplou o ano de 2017 e de janeiro a junho de 2018.

A análise preliminar referente aos media angolanos que de seguida apresento, está distribuída por três itens: fluxos migratórios para Angola, conjuntura em Portugal e Angola e fluxos migratórios no mundo. No primeiro e segundo itens realizo uma breve análise de conteúdo, no item fluxos gerais no mundo apenas descrevo o tipo de notícias que cada jornal mais foca.

O presente post para além da breve referência biográfica aos dois jornais, contempla uma breve análise de conteúdo no que diz respeito ao item fluxos migratórios para Angola, tendo em conta os temas mais focados nas diferentes seções dos respetivos jornais. Num próximo post sobre Luanda#3, a análise incidirá sobre os itens conjuntura em Portugal e Angola e fluxos migratórios no mundo.

Jornal de Angola

Na altura da independência, a 11 de novembro de 1975, o Jornal Província de Angola, fundado a 16 de agosto de 1923, por Adolfo Pina, e propriedade da Empresa Gráfica de Angola, S.A., tinha alterado a seu nome para Jornal de Angola. Em junho de 1976, Agostinho Neto, então Presidente da República, torna o Jornal de Angola propriedade do Estado angolano, através da publicação do Decreto-Lei n.º 51/76 (Suplemento do Jornal de Angola, 26 de junho de 2016, pp. 2,4).

Nas instalações da Empresa Gráfica de Angola, S.A., passou a funcionar e ainda hoje funciona a editora Edições Novembro, E.P – atualmente detentora dos títulos: 

Jornal de Angola (http://jornaldeangola.sapo.ao//);

Jornal dos Desportos (http://jornaldosdesportos.sapo.ao/);

Jornal Angolano de Arte e Letras (http://jornalcultura.sapo.ao/);

Economia & Finanças (http://jornaldeeconomia.sapo.ao/empresas).

O Jornal de Angola é um jornal diário, controlado pelo Estado Angolano. Comemorou 43 anos em junho de 2019. Distribuído nas 18 províncias do país, regista uma distribuição média diária de 12.934 exemplares, através das vendas diretas e por assinatura. Luanda, Moxico e Benguela são as províncias onde se assinala o maior número de vendas (Suplemento do Jornal de Angola, 26 de junho de 2016, p.3).

A publicação online de notícias distribui-se pelas seguintes seções: “Política”, “Reportagem”, “Opinião”, “Mundo”, “Economia”, “Províncias”, “Sociedade”, “Gente”, “Cultura” e “Desporto”.

Ao fim-de-semana o Jornal de Angola também publica cadernos e suplementos. A seleção de temas e notícias é variada. Pode recair sobre um determinado tema – moda, tecnologia e gestão, etc. – ou incidir mais sobre o campo social, cultural e económico de uma das províncias de Angola.

O País

O jornal O País, fundado em novembro de 2008, pelo grupo Medianova, comemorou recentemente 10 anos. A publicação online de notícias distribui-se pelas seções: “Política”, “Sociedade”, “Economia”, “Opinião”, “Cultura”, “Mundo” e “Desporto”.

O Grupo Medianova, o maior grupo de comunicação privado de Angola, é detentor da TV Zimbo, da Rádio Mais, dos jornais O País e Semanário Económico, da Revista Vida e Revista Exame.

Media angolanos – análise preliminar / Fluxos migratórios para Angola[1]

Jornal de Angola

O País

Secção

N.º de notícias recolhidas

Secção

N.º de notícias recolhidas

Política

208

Política

52

Mundo

154

Cultura

35

Desporto

137

Economia

20

Economia

111

Sociedade

18

Sociedade

52

Opinião

12

Gente

49

Desporto

12

Cultura

49

Mundo

5

Províncias

19

Total

154

Opinião

8

 

 

Reportagem

5

 

 

Cadernos e suplementos

 

 

Suplemento fim-de-semana

5

 

 

Jornal Metropolitano da Capital Angolana

2

 

 

Total

799

 

 

Os tópicos mais focados nas notícias dos dois jornais sobre fluxos migratórios para Angola são:

Políticas migratórias  

Programa de isenção de visto, regulação de fluxo, expulsão e repatriamento de imigrantes ilegais, detenção.

Fronteiras

Comércio, segurança e controlo, República Democrática do Congo (RDC), Namíbia, República do Congo e Zâmbia.

Refugiados

Êxodo, fronteiras, acolhimento, recenseamento, registo biométrico, apoio e financiamento, repatriamento (voluntário / involuntário), regresso, detenção.

Economia política  

Investimento estrangeiro, trabalhadores estrangeiros, produção nacional, importação-exportação, o novo regime para estrangeiros, a nova lei de investimento estrangeiro.

Dados da ONU registaram a presença de 106.845 imigrantes em Angola para o ano de 2015, o que equivale a apenas 0,4% da população do país de destino. Entre as três nacionalidades mais representadas, a mesma fonte referiu a RDC (40%), Portugal (15%) e Cabo Verde (10%).

Ora as notícias recolhidas nos jornais angolanos dão-nos conta da presença de congoleses e portugueses em Angola, mas não de cabo-verdianos. Outra presença que as notícias nos dão conta, é a da forte imigração “chinesa” e de “oeste africanos” (malianos, senegaleses, guineenses, gambianos, mauritanos, etc.) em território angolano. No entanto, a imigração “chinesa” em Angola raramente é identificada nas fontes estatísticas oficias.

Como veremos, o Jornal de Angola e o jornal O País, no que diz respeito ao período em análise, pouco ou nada registam sobre a vida quotidiana dos imigrantes portugueses em território angolano. Porém, várias notícias retratam a entrada massiva em Angola de imigrantes e refugiados originários da República Democrática do Congo (RDC). País que partilha fronteira com sete das 18 províncias de Angola (Cabinda, Zaire, Malanje, Uíge, Lunda Norte, Lunda Sul e Moxico), e vive tempos politicamente conturbados sobretudo na região leste.

A extensa fronteira de Angola com a RDC é descrita nas notícias do Jornal de Angola como porta de entrada para muitos imigrantes ilegais, originários sobretudo da RDC e do oeste africano.  A par da extensa fronteira, a falta de recursos e de mecanismos fronteiriços de controlo e a formação de redes migratórias de auxílio à imigração ilegal, também surgem como fatores que não só apoiam como estimulam a imigração ilegal para o território angolano.  

Com efeito, várias das notícias recolhidas sobre mobilidade contemporânea nestes jornais, sobrevalorizam as experiências dos migrantes de uma perspetiva da imigração ilegal e da criminalidade. Nomeadamente, as suas representações e repercussões são sobretudo exploradas como matriz essencialista, determinante e explicativa da intensificação e complexidade dos fluxos migratórios para Angola. A centralidade do tema é tão grande que várias peças descrevem ao pormenor o número de imigrantes ilegais registados, bem como o número, o grau e tipo de infrações ou delitos cometidos.

As notícias que falam sobre as experiências dos migrantes de uma perspetiva da imigração ilegal e da criminalidade, descrevem sobretudo crimes (citados e traduzidos de relatórios) de “contrabando” (de vários tipos de mercadorias) ou “fuga ao fisco”, “falsificação de documentos”, “venda de estupefacientes (liamba)”, “exploração ilegal de diamantes” e “tráfico de diamantes”, “caça ilegal”, “devastação florestal” (para exploração de madeira), “exploração ilegal de carvão”, bem como o envolvimento de “nacionais” (cidadãos comuns e sobas/“autoridades tradicionais”) e “estrangeiros” em redes de “auxílio à imigração ilegal”.

Algumas notícias também dão conta de homicídios e raptos contra imigrantes em Angola. Ao olharmos para essas notícias, os empresários chineses sedeados em Angola serão os que mais sofrem esse tipo de violência.

Como referi anteriormente a centralidade do tema das migrações do ponto de vista da imigração ilegal e da criminalidade é tão grande que várias peças descrevem ao pormenor o número de imigrantes ilegais, o grau e tipo de crimes, etc. Ora a divulgação destes números ganha destaque através das fontes oficiais chamadas a falar sobre migração (serviços policiais, governadores provinciais, etc.) – em detrimento das vozes e subjetivadas dos imigrantes ou de outro tipo de abordagem acerca das migrações.

Como exemplo de algumas das fontes oficiais chamadas a falar sobre migração, temos: Polícia Nacional (PN), Forças Armadas Angolanas (FAA), Polícia de Guarda Fronteiras de Angola (PGF), Serviço de Migração e Estrangeiros (SME), Serviço de Investigação Criminal (SIC), Centro de Detenção de Estrangeiros Ilegais (CDEI), Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), Centro de Imprensa Aníbal de Melo (CIAM), entre outras.

Convergido sistematicamente para a necessidade de adoção de políticas de segurança e controle das fronteiras e regulação dos fluxos migratórios, a produção, avaliação e gestão destas notícias não contemplam qualquer tipo de formulação de políticas de integração sociocultural dos imigrantes e de atribuição da nacionalidade.

Por extensão, as fontes oficiais chamadas a falar sobre migração trazem para a opinião pública vários discursos controversos. Em várias notícias é argumentado que a presença dos “imigrantes ilegais” coloca “em risco a soberania e a economia do país”, a saber: “a unidade nacional”, “a integridade territorial do país”, “a consolidação da paz” e “a estabilidade na construção da nação”.

Por sua vez, as representações propagadas acerca da condição de “migrante” e em volta de noções como “emigrante”, “imigrante”, “estrangeiro”, “expatriado” (e outras…), independentemente do seu enquadramento legal (“ilegais”, “legais”, “residentes”, “não-residentes”, …), sugerem repetidamente uma apropriação confusa do seu significado.

Designados como “transgressores”, “indocumentados”, “irregulares”, “clandestinos”, (mas também) “cidadãos”, os “imigrantes”, os “estrangeiros”, os “refugiados”, os “expatriados”… “ilegais”, são frequentemente alvo de narrativas negativas que incluem violência, preconceito, mercado informal (pobreza/desemprego/problemas sociais/formas de sobrevivência), suborno, corrupção, condenação, fiscalização, repatriamento, expulsão e detenção.

Porém, as noções de “estrangeiro” e “expatriado” também surgem em algumas peças como especificidade de certos enquadramentos migratórios de fluxos laborais (“empresários portugueses”, “empresários chineses”, “trabalhador estrangeiro”, etc.) e de certos tipos de consumo, como a procura imobiliária.

Já a homogeneização de categorias étnicas e a atribuição da nacionalidade servem de referência para a concretização de designações genéricas acerca da condição de migrante: os “cidadãos da RDC”, os “estrangeiros da RDC”, os “estrangeiros da República do Congo”, os “cidadãos de nacionalidade congolesa”, os “cidadãos de países do oeste africano”, os “cidadãos da República Centro Africana”, os “estrangeiros do Congo Brazzaville”, os “cidadãos de origem asiática”, os “camaroneses”, os “malianos”, os “chineses”, etc.

A fraca incidência no registo de perfis quanto a objetivos migratórios, educação, emprego, idade, recursos, dinâmicas familiares, etc., não significa que por vezes não surjam referências ao género, à idade (“homens”, “mulheres”, “crianças”) e/ou às regiões de origem dos migrantes ou refugiados (como por exemplo “do Kaisai”).

[1] A diferença no número de notícias entre os dois jornais, deve-se ao facto da versão online (não paga) do Jornal O PAÍS, ao contrário do Jornal de Angola, apenas disponibilizar um número limitado de notícias por seção. À medida que novas notícias dão entrada outras deixam de estar disponíveis. Face a essa limitação, o levantamento de notícias no jornal O País (iniciado em março de 2018) apenas compreende o período de 14 de novembro de 2017 a 30 de junho de 2018, para cada seção. A Seção Mundo do jornal O País contempla somente notícias sobre África (isso também explica a diferença no número de notícias recolhidas na secção mundo em cada um dos jornais). E a Seção Desporto embora mencione notícias só sobre futebol, algumas publicações abrangem outras modalidades. Foi na seção política onde recolhemos mais notícias.

Cartas do terreno, Berlim #3: um supermercado português em Berlim

Muito perto da Embaixada Portuguesa em Berlim, existe um supermercado português de que toda a gente me fala desde que cheguei. As famílias portuguesas que conheço raramente lá fazem compras, mas todas já visitaram o local pelo menos uma vez, para comprar ingredientes específicos para ocasiões especiais, como a preparação de um prato português para amigos, ou simplesmente para matar saudades.

O supermercado vende produtos com embalagem e sabores que nos são familiares. Também lá se encontram produtos de Espanha e da América do Sul. Existe um bar à entrada que serve bicas e outros cafés, doçaria e pastelaria portuguesa, petiscos, assim como refeições caseiras que parecem ser feitas mais ao gosto alemão (naquele dia havia estufado de lentilhas). A senhora que estava na caixa, informa-me que a grande maioria dos clientes é alemã, pessoas que vivem ou trabalham nas redondezas, assim como turistas hospedados no hostel da porta ao lado.

Canela, um ingrediente indispensável da doçaria portuguesa.

 

Doces.

Batatas fritas no formato necessário à confecção do bacalhau à Brás.

Bacalhau seco e salgado congelado.

Um das marcas de arroz mais conhecidas.

Uma das marcas de massas mais conhecidas.

Refrigerantes.

Águas e cervejas.

 

Azeite.

Marcas internacionais são proprietárias de marcas nacionais que são nossas conhecidas de há muito tempo.

Farinhas de trigo e milho.

As mais conhecidas marcas de papas de criança.

Uma bica e um pão de ló de Alfazeirão.

Pastelaria.

Petiscos.

 

 

Cartas do terreno: Lisboa #3 Habitação

Quando se fala em migração, o quotidiano numa cidade (ou “vida quotidiana”), ou em bens materiais, o armazenamento é um aspeto importante. O armazenamento pode ser de coisas, do corpo, mas também pode ser o armazenamento de memórias e de desafios. Como o título do texto sugere, refiro-me à casa e às questões referentes à habitação.

Como socióloga-geógrafa (e antropólogo ‘novata’ neste projeto), a localização é um aspeto muito importante a considerar na tomada de decisão. Em termos estatísticos, a Grande Lisboa apresenta os seguintes números (Censo Português, 2011).

Total

Population that did not change municipality

Immigrants arriving from another municipality

Immigrants from another country

2,821,876

2,656,749

102,827

26,275

Visualmente, a distribuição de imigrantes pode ser vista nos mapas elaborados pelo site Pordata.

Como é evidente, a maior parte da população foi registada a viver na Grande Lisboa (e curiosamente também desproporcionalmente na ilha principal da Madeira)).

Quando cheguei à cidade e analisei pela primeira vez o dia-a-dia de Lisboa, fiquei a saber do ‘stress no alojamento’ causado pelo excesso de turismo, pela crise financeira e pela falta de investimento público em habitação. A desigualdade era (e é) profunda em Lisboa. Num post anterior, falei sobre esse status de Lisboa como um destino turístico e apontei algumas das razões, bem como preocupações sobre o mesmo. Esta foi a razão pela qual, em 2017, a Caravana pelo direito à habitação empreendeu a sua viagem de norte a sul de Portugal e revelou uma série de casos em que, por virtude de estarem esquecidas, ignoradas e excluídas do diálogo, pessoas viviam em condições insalubres e perigosas. Cinco dos dez locais contemplados, estava localizado dentro ou nos arredores da Grande Lisboa. Daí, estes segmentos da sociedade alimentam a cidade em termos de trabalho invisível ou desemprego, sendo empurrados para a periferia da cidade. Devo assinalar aqui que esses alojamentos são ocupados quer por imigrantes (internos e externos) quer por lisboetas (como visto nos mapas).

Por outro lado, torna-se fascinante e paradoxal que os websites de informação “expat” apresentem a própria cidade, da qual as pessoas acima mencionadas são expulsas, como um local ideal para qualquer migrante. Evidentemente, a chave está no termo “expat”, que parece descrever apenas imigrantes ricos, geralmente brancos. Com uma variedade de nomes anglicizados e uma identificação de “boa vizinhança”, esses sites informam onde ir sem ter que enfrentar os “problemas” de falta de segurança na capital.

Uma dessas descrições fornecida pela Expatica (www.expatica.com) pode ser encontrada na imagem abaixo. A descrição e imagem são reveladoras do tipo de migrantes “destinados” a ocupar regiões.

Por extensão, o site lista e sugere bairros onde os expatriados poderiam viver. O texto é citado abaixo:

  • Alfama e Graça – O bairro mais antigo de Lisboa, com ruas sinuosas e um grande senso de tradição e comunidade.
  • Avenidas Novas & Alvalade – grandes apartamentos caros e bons serviços, mas pode sofrer de falta de atmosfera.
  • Bairro Alto – Um local popular para desfrutar da vida noturna de Lisboa, popular entre os jovens e hipsters
  • A Baixa da cidade (Baixa) (em ingles, escrivem: Lower Town – Baixa) – Um grande atrativo para investidores imobiliários em busca de apartamentos.
  • Belém – Um bairro ribeirinho com alguns dos museus mais famosos da cidade.
  • Restelo – Apresenta um estilo de vida tranquilo e descontraído, embora com preços correspondentes.
  • Campo de Ourique – Popular entre as famílias de classe média, mas não tem uma estação de metro
  • Parque das Nações – Um pouco mais longe do centro, possui arquitetura mais contemporânea e um agradável local à beira-mar.
  • Príncipe Real – A pouca distância do centro, a habitação aqui pode ser cara.
  • Santos & Lapa – Popular entre os moradores de classe média e aposentados.

É interessante que todas as descrições parecem sugerir algum tipo de riqueza ou capital (‘apartamentos caros’, ‘populares’ – relacionados a áreas gentrificadas, ‘museus famosos’) e estilos de vida que se mencionados a propósito da fatia mais desfavorecida da sociedade não seriam considerados positivos (‘descontraído’, ‘desfrute da vida noturna de Lisboa’, tradição e comunidade). Além disso, ao sugerir onde ficar, listam áreas ao longo da linha (linha do comboio ao longo da costa do rio Tejo) especificamente de Cascais, Birre e Sintra. Esses bairros também são historicamente e na actualidade muito ricos.

Outro site com informações para pessoas que se dizem “expatriados” é o InterNations (www.internations.org). Não irei mais adiante, mas menciono como uma fonte potencial de informação e caminho para a socialização. A descrição na página de destino de Lisboa “vende” Lisboa como uma cidade para se viver como expatriados/as (rico e branco).

Embora eu certamente não queira argumentar que as áreas sugeridas para viver sejam bairros carentes, desejo destacar a disparidade que pode ser reforçada por tal comunicação, deixando de lado certos tipos de migrantes através da activação de certos códigos deixando de lado certos tipos de migrantes através esta sinalização da virtude.

Isto é relevante, pois até agora todos os participantes (australianos e alemães) nesta pesquisa vivem dentro ou muito perto das áreas identificadas como desejáveis. Três possuem a sua casa (na linha) enquanto dois alugam (um dentro de Lisboa e o outro fora, também na linha). Isso tem um profundo impacto sobre o modo como a cidade é vivenciada por eles como um grupo de classe diferente de migrantes. Isso permite uma compreensão interessante de bens, serviços e recursos aos quais eles têm acesso, e como eles estruturam as suas vidas como migrantes.

Para mais informações sobre os dados do recenseamento português, visite Pordata (https://www.pordata.pt/).

Notas do campo – Berlim #2, Sardinhada em Berlim

Na semana passada fui ao baby shower de uma das nossas famílias participantes em Berlim. Em conversa com portugueses, soube que no fim de semana seguinte haveria uma festa portuguesa no Parque Monbijou, no centro de Berlim. Não obtive mais detalhes no momento, mas uma rápida pesquisa na internet conduziu-me ao  evento no facebook. 

Tratava-se, na verdade, uma sardinhada,  um evento muito sazonal, particular desta época do ano em portugal.  A temporada de pesca da sardinha começou há algumas semanas e junho é o mês em que ocorrem várias festas em homenagem a Santo Antônio, São João ou São Pedro (os santos populares) em muitos locais do país. As festas incluem fogueiras, e sardinhas assadas no pão, ao som de  música pimba

A view of the picnic at Monbijou park, with the grilling station at the back.

No entanto, a sardinhada em Monbijou não parecia querer reproduzir as festas dos santos populares em Portugal. Não havia música a tocar alto, assinalando o evento à distância. O evento parecia mais um grande piquenique, com um stand ao lado do grelhador vendendo comida e bebida, e as pessoas sentadas em grupos nas mantas trazidas de casa. Os churracos são permitidos na maioria dos parques em Berlim, havendo sinaletica indicando as áreas específicas onde são permitidos. Este é um dos muitos usos que os berlinenses dão aos parques. Outros usos incluem banhos de sol (frequentemente em fato de banho), sentar em cadeiras dobráveis ​​a tomar bebidas enquanto se contempla uma paisagem, pendurar redes em árvores e nelas se deitar, jogar jogos de grupo, etc. Os parques parecem definir a vida pública de Berlim e os estilos de vida dos seus habitantes. E se isto for verdade, então não poderia ser mais verdade do que neste mês muito quente de junho.

Estaciono a minha bicicleta e ando entre a multidão. Português, alemão, italiano e espanhol são idiomas que podem ser ouvidos falar por pessoas de todas as idades. Entro na fila para comprar comida. Atrás de mim, duas mulheres de meia-idade falam português do Brasil, à minha frente, duas mulheres na faixa dos 20 anos que usam o youtube nos seus smartphones para mostrar um amigo que fala inglês, o que é e como soa a música pimba.

Sardines and German sausages. Portuguese rock salt.

Beer ans soft drinks on ice.

Apron.

Da grelha, vão saíndo não só as habituais sardinhas e bifanas, mas também salsichas de tipo alemão, que não são tradicionalmente encontradas nas sardinhasdas que tenho como referência. Adaptação da sardinhada ao ambiente de Berlim? Peço duas sardinhas em pão de trigo, embora também esteja disponível o pão de milho. Acompanho com um Sumol de ananás fresco dos alguidares de gelo com cervejas e refrigerantes portugueses. Também há vinho tinto e branco portugueses.

A senhora que fatia o pão interrompe a sua tarefa para saudar uma amigo que lhe entrega um avental com a palavra Portugal bordada, o que provoca uma imediata reação das suas colegas que também exigem a mesma oferta, em tom de brincadeira. As bebidas e os alimentos foram fornecidos por um supermercado português em Berlim, e o pão por uma padaria greco-portuguesa, ambos publicitados. Foi-me dito que em anos anteriores eram vendidos também pastéis de nata, mas para minha decepção, tal não acontece este ano.

Começam a realizar-se oficinas de bombos de dez em dez minutos, o que faz com que a festa finalmente tenha música ambiente! Mais tarde, um rancho também se apresenta num cruzamento de alcatrão dentro do parque. Os membros do rancho parecem ser todos portugueses ou seus descendentes, e as idades parecem ir dos vinte aos sessenta. Duas meninas que parecem ter menos de cinco anos, também participam às vezes, guiadas pelos bailarinos mais velhos. Os membros do rancho não vestem as tradicionais roupas de rancho, mas em vez disso envergam as suas próprias roupas. Um bailarino veste uma t-shirt de Cristiano Ronaldo, da selecção nacional de futebol. Uma bailarina usa brincos de coração de filigrana do norte de Portugal.

São sete horas, mas o sol ainda brilha e a ameaça de chuvisco não passou de ameaça. As sardinhas parecem ter acabado, pois apenas bifes e salsichas podem ser vistos na grelha. Os últimos pães são vendidos ao público. Compro um antes de ir embora!

Kathy Burrell no ICS este mês

Cartas do terreno: Lisboa #1, Cityscapes

Image of a stylised map of central Lisbon; Source unknown

Nos meus 2 posts anteriores sobre Lisboa, apresentei a migração em relação ao turismo e em relação ao colonialismo. Neste blog post, vou apresentar Lisboa como cidade ao iniciar o trabalho de campo etnográfico como parte deste projeto de pesquisa, o TRANSITS.  Chegada à cidade e ao país no final do ano passado, ofereço as impressões pessoais de uma migrante.

Lisboa é a capital de Portugal, embora talvez não tão movimentada quanto muitas capitais do mundo. De fato, a vida aqui move a passos lentos, a um ritmo em que tomar um café talvez seja mais importante do que chegar a tempo para uma reunião agendada. Isso pode ser lindo e, ao mesmo tempo, desconcertante para um estranho. A pessoa acostuma-se e aprende a apreciar esses aspetos mundanos da vida quotidiana nesta cidade em crescimento.

A cidade em si é parte de uma região ou distrito mais amplo, e parece crescer de uma pequena área “baixa”, enquanto o rio Tejo se contrai para dentro. Este centro da cidade está repleto de encostas que causam dores nas pernas e belas vistas de onde se pode apreciar a paisagem urbana. Esta área em si dificilmente é habitada, exceto pelos turistas que se substituem uns aos outros continuamente, e os numerosos novos cafés e restaurantes sofisticados (“hipster”). Aqui, há muitas compras para fazer e muitas fotos para tirar.

Images by author (Sinead D’Silva)

Ao longo da costa, para dentro, as áreas de escritórios da “Expo”, ou Parque das Nações, refletem uma área comercial diferente de Lisboa – não é tão dedicada ao turismo, mas reflete alguma parte da agitação esperada de uma cidade capital. À medida que a cidade se estende para o Oceano Atlântico, as áreas residenciais tornam-se mais comuns. Uma mistura de casas intencionais construídas durante o Estado Novo e novos empreendimentos saúdam-nos, uma mudança dos pitorescos edifícios emblemáticos do centro da cidade.

Mais longe no comboio na Grande Lisboa, as paisagens residenciais tornam-se mais visíveis, por vezes necessitando de manutenção; e a agitação da cidade desaparece. Mais adiante, percebe-se uma mudança na paisagem revelando diferenças de classe sociais. Indo daqui para norte é-se cumprimentado por quintas e montanhas. Chegamos a Sintra. Continuando ao longo da costa, encontramo-nos em Cascais, um local moderno à beira-mar. Do meu ponto de vista, percebe-se também uma sugestão de mais dinheiro no ar, às vezes observável através dos trajes e sotaques. É interessante notar como a cidade parece ser etnicamente diversa, o que para as cidades europeias parece surpreendente. Porem, quando a cidade repousa, os diferentes lugares a que as pessoas chamam de lar sugerem uma disparidade de classe racial.

Images by author (Sinead D’Silva)

Esta é a paisagem urbana de Lisboa. Ao navegá-la, já descobri que outros a navegam de forma diferente.

Migrações e migrantes nos media

Despedida de emigrantes portugueses (DN); Manifestação a favor de Refugiados na Alemanha (Reuters/Fabrizio Bensch); Centro de detenção imigrantes na ilha de Manus na Austrália (Reuters)

A análise dos media é uma tarefa de constextualização, cujo objectivo é ajudar a compreender as representações prevalentes dos migrantes e do temas das migrações e, por outro, as representações prevalentes dos contextos abrangidos pelo nosso projecto (Portugal, Angola, Austrália e Alemanha).

Em cada um dos países, foram seleccionados veículos imprensa escrita de acordo com a sua representatividade em termos de circulação, influencia na formação da opinião pública e tendência para reproduzir o conteúdo de outras publicações nacionais. As notícias foram consultadas nos sítios online dos jornais. O período abrangido pela recolha foi o decorrido entre Janeiro de 2017 a Junho de 2018.

A tarefa encontra-se ainda a decorrer, sendo que se encontra finalizada, em Portugal, a recolha e análise preliminar dos jornais Público e Diário de Notícias, dos quais se recolheram um total de 818 peças jornalísticas.

Os temas relacionados com migrações mais abordados por estes dois jornais foram, em primeiro lugar as políticas migratórias restritivas em países como os Estados Unidos, aItália e a Hungria, e em seguida os fluxos migratórios no mar Mediterrâneo. Ao nível nacional, os principais tema relacionados com a imigração foram  Vistos Gold e  regularização de imigrantes. Dentro da emigração, o protagonismo foi dado ao número de emigrantes, e atenção dada a algumas profissões.

A Austrália aparece em notícias relacionadas com a criminalidade, nomeadamente o terrorismo e a pedofilia. No universo das notícias relacionada com a Austrália, o tema das migrações surge sobretudo relacionado com a detenção ilegal de refugiadosNas notícias que retratam portugueses na Austrália, a aprticipação  em eventos de surf surge em destaque. Não existem notícias sobre australianos em Portugal.

Angola surge sobretudo em notícias relacionadas com a crise económica, a transição política entre Santos e Lourenço e a operação Fizz. Relativamente à migração em Angola, existem sobretudo notícias sobreas políticas migratórias do país. As notícias sobre Portugueses em Angola focam sobretudo as relações diplomáticas e económicasO número de notícias sobre Angolanos em Portugal é muito reduzido, sendo que estas focam o número de Angolanos que vivem em Portugal, e as dificuldades dos estudantes Angolanos em receberem dinheiro.

As notícias sobre a Alemanha, retratam o país com uma economia forte e com  influência na economia da Europa e de Portugal. As notícias sobre migrações na Alemanha focam sobretudo a criminalidade  contra imigrantes e reacionarismo relativamente à imigraçãopolíticas migratórias e refugiados. Os portugueses na Alemanha surgem reratados em notícias sobre enfermeiros e empresas portuguesas em feiras de negócios na Alemanha. As notícias sobre alemães em Portugal focam sobretudo empresas alemãs.

 

 

 

 

 

Migração para Portugal: Uma breve história do colonialismo

No primeiro post do blog sobre a migração para Portugal, tentámos traçar as tendências recentes na migração com o turismo, como um caminho que facilita o mesmo. O objetivo era destacar as maneiras pelas quais a ideia de uma economia idílica, relaxada, barata e ainda em desenvolvimento resulta em pessoas atraídas pela geografia. No entanto, esta não é a única causa, e a migração não é nova para Portugal. Desde os anos 1400, Portugal foi um país colonizador e permaneceu assim até o final dos anos 1900. Foi somente em 1974 que a descolonização como um processo foi iniciada, após o derrube da ditadura de quase 50 anos através do que veio a ser chamado de Revolução dos Cravos. A colonização portuguesa contemplou o movimento de pessoas e coisas entre colónias e o colonizador.

Alimentados pela riqueza da Igreja Católica e da nobreza, navios portugueses zarparam dos portos do país e da vizinha Espanha, começando primeiro pelo continente africano. As principais agendas eram, portanto, conversão (ao catolicismo) e comércio. Assim, houve um fluxo sistemático de pessoas na direção das colónias para fins de governar e extrair recursos. No entanto, outro aspecto era importante para o comércio, o do “comércio” de trabalho, ou seja, os humanos, particularmente do continente africano, no chamado Tráfico de Escravos. Lisboa viu a primeira “remessa” de escravos chegar das chamadas “descobertas” no continente africano em 1441. O tráfico de escravos nada mais era do que uma afirmação de poder para ajudar a construir nações com base na supremacia branca racista, e Portugal registrou o maior número de pessoas traficadas.

Ao longo dos anos, e sob a crença de que Portugal não tinha “colónias”, mas sim extensões do mundo português, houve movimentos significativos de pessoas, em grande parte da Europa para as colónias, mas também vice-versa. O objetivo do colonialismo português era construir uma cultura portuguesa através da geografia, feita substituindo a cultura e a língua locais. No entanto, isto subsequentemente se transformou numa oportunidade para os países de língua portuguesa manterem alguns laços entre si.

O colonialismo continua a ser uma parte contestada da história portuguesa. Em Lisboa, as propostas recentes para construir um museu do colonialismo foram um ponto de debate entre os estudiosos do país, alguns dos quais escreveram uma carta aberta condenando tal movimento pelo potencial de glorificar o colonialismo. A própria cidade de Lisboa já venera o seu passado colonial através do monumental Monumento das Descobertas e dos seus avanços marítimos através do Museu Marítimo na capital e noutras partes do país, não se limitando à costa sul do Algarve. No início de 2018, um monumento memorial para aqueles que sofreram com a escravidão também foi contestado, sugerindo que o colonialismo português era relativamente tímido. Ao contrário do colonialismo espanhol, que empregava o massacre como seu modus operandi, Portugal usou a assimilação para obter o controle das suas colónias. Neste momento, Portugal tenta redimir-se do colonialismo, estendendo o apoio aos migrantes que chegam através do que foi chamado recentemente de “Crise dos Refugiados” na Europa. Os efeitos a longo prazo desta tentativa de construir uma economia em recuperação ainda estão para ser vistos.

O debate sobre migração em Portugal não é, portanto, novo. Existem modos multifacetados em que Portugal se apresenta como um destino para os migrantes. É contra este pano de fundo que devemos considerar os movimentos das pessoas e entender quem ocupa que aspecto da vida em Portugal. As nacionalidades propostas para este estudo oferecem uma diversidade única de economias tipicamente mais ricas. A retórica da migração é muitas vezes focada em fluxos Sul-Norte, com uma noção de que os pobres do Sul se movem por razões económicas ou sociais para o Norte “rico”. Pouca atenção é dada ao movimento das elites para o norte, por exemplo, e às complexidades em relação a quem viaja de onde e com que finalidade.

Histórias de migrantes em Berlim – pela Reuters

«Mais de um milhão de pessoas chegaram à Alemanha como migrantes desde 2015, sob a política de “portas abertas” da Chanceler Angela Merkel.»

Mas as políticas migratórias defendidas por Merkle tornaram-na impopular junto dos mais conservadores, e junto da cada vez mais poderosa extrema-direita, tanto na Alemanha como na União Europeia.

Em vésperas da eleição da sucessão de Angela Merkle no seu partido, que irá disputar as eleiçõe de 2021, a Reuters publicou no seu site de fotojornalismo, The Wider Image, uma reportagem que conta a história de três migrantes em Berlim: Ali Mohammad Rezaie do Afganistão, Haidar Darwish da Síria e Joseph Saliba, da Síria.

São histórias dos seus percursos de integração na cidade de Berlim.

Leia aqui! (em inglês)

16 AUG 2018. BERLIN, GERMANY. REUTERS/FABRIZIO BENSCH

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