Protagonizados por imigrantes com diferentes perfis socioprofissionais, económicos, culturais, etc., os fluxos migratórios para Angola acentuaram-se a partir dos anos de 1990 com a abertura de uma economia dita de mercado e com os Acordos de Bicesse, cujas medidas facilitaram a circulação migratória em território angolano. Similarmente, a falta de mecanismos fronteiriços de controlo[1]face à migração ilegal, a formação de redes migratórias que atuam como elemento de intermediação entre os atores individuais ou pequenos grupos e as forças estruturais de atração, e a crise europeia e mundial dos últimos anos, inscrevem-se como fatores que não só apoiaram como estimularam novos fluxos migratórios para Angola.

A partir de 2002 com o terminar da guerra civil e, posteriormente, com a crise financeira mundial de 2008 e a tão falada crise na Europa intensificaram-se e diversificaram-se num contexto mais vasto de fluxos migratórios globalizados. Atualmente com o abrandamento da economia angolana, num ambiente (de crise financeira e cambial) marcado desde meados de 2014 pela quebra na procura e descida dos preços do petróleo e pela falta de investimento noutras áreas, com consequências na tomada de medidas de contenção da despesa pública, investimentos parados, restrições de acesso ao dólar, desvalorização do Kwanza, dificuldades em transferir dinheiro para fora de Angola, atrasos nos salários e nos pagamentos a fornecedores, etc., já se fala numa eventual diminuição dos fluxos migratórios.

No contexto global dos novos emigrantes portugueses, Angola configurou-se como um dos destinos preferenciais de muitos portugueses que migraram para fora da União Europeia, atraindo dezenas de milhares de trabalhadores nos últimos anos. Estima-se, tendo em conta a média anual dos fluxos entre 2008-2012, que 10 a 12% tiveram como destino Angola e Moçambique, 80 a 85% a Europa e 1% o Brasil (Pires, Pereira, Azevedo e Ribeiro 2014:37).

Os números referentes aos registos no Consulado Geral de Portugal em Luanda e Benguela, aqui delimitados a um período de 10 anos, mostram que o número de inscritos de 2008 a 2015 manteve uma tendência de crescimento, tendo passado de mais de 72 mil, em 2008, para mais de 134 mil, em 2015.

Registos consulares de 2008 a 2017

Gráfico elaborado pelo projeto “Trânsitos”, valores do Observatório da Emigração

Continuando a analisar a evolução da emigração de portugueses para Angola, mas agora com base em dados relativos ao número de vistos emitidos pelo Consulado Geral de Angola em Lisboa e no Porto, confirma-se que os portugueses continuaram a ir mesmo com a crise económica que desde 2014 se instalou nesse país:

Entradas de portugueses em Angola

Ano N Taxa de Crescimento 
2013 4651 _
2014 5098 9,6%
2015 6715 31,7%
2016 3908 -41,8%
2017 2962 -24,2%

Gráfico elaborado pelo projeto “Trânsitos”, valores do Observatório da Emigração

Contrariando algumas expetativas, a emigração portuguesa para Angola cresceu cerca de 32% em 2015. Porém desceu expressivamente de 2015 para 2016, perto de 42% (- 2.807 entradas) e de 2016 para 2017 (-24%). Os efeitos cumulativos e prolongados da crise em Angola, influenciando diretamente um menor número de entradas e um maior número de saídas, ajudar-nos-ão a compreender estes dados.

Estudos escasseiam, mas a emigração de portugueses para Angola tem-se acentuado e os perfis socioeconómicos, culturais, etc., diversificado. Para além dos investidores e empresários, existem ainda muitos trabalhadores portugueses expatriados em Angola, no âmbito de propostas de trabalho e projetos migratórios muito variados (procura de novas ou melhores oportunidades, desemprego…). Interessa-nos explorá-los e discuti-los na extensão das dimensões materiais dos movimentos contemporâneos.

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* Os números dos registos consulares sobre a emigração portuguesa para Angola devem ser lidos com precaução. Não só o registo não é obrigatório, como a sua atualização comporta algumas a fragilidades de manutenção. Já o número dos inscritos nos consulados portugueses em Angola de pessoas nascidas em Portugal só está disponível para o ano de 2013, ano onde se contabilizou 38.994 inscritos. Um número muito aquém dos anunciados nos media, cerca de 100 a 200 mil ou mais.
[1] Por exemplo a extensa fronteira com a RDC, país que partilha fronteira com sete (Cabinda, Zaire, Malanje, Uíge, Lunda Norte, Lunda Sul e Moxico) das 18 províncias de Angola, tem sido porta de entrada para muitos migrantes ilegais originários sobretudo da RDC e do oeste africano.