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cultura material, migrações e vida quotidiana

Mês: November 2018

Migração para Portugal: a turistificação de Lisboa

Passaram 10 anos desde a crise financeira europeia de 2008. Em 2011, o pedido de Portugal de assistência financeira através de empréstimos no valor de 78 mil milhões de euros da UE e do FMI veio com directivas da Troika para implementar medidas de austeridade. Sob o governo de direita, essas políticas foram implementadas rapidamente, apesar do efeito incapacitante que teria sobre a população, originado também pelo corte de gastos em serviços públicos, incluindo saúde. A insatisfação com tais políticas foi particularmente visível na onda de protestos em Lisboa.

As repercussões da crise refletiram-se em medidas de austeridade implementadas no país, deslocando muitas pessoas em busca de empregos para outros países da UE ou para mais longe. No entanto, após a eleição de um governo socialista de esquerda, o afastamento da austeridade teria provocado uma melhora drástica na economia. Em 2017, Portugal havia reembolsado os seus empréstimos de resgate. A rejeição da austeridade e o investimento em empresas sociais ajudou a melhorar a situação. Concomitantemente, foi também o florescimento de outra indústria que apoiou esta mudança, nomeadamente o turismo. Em 2017, Portugal registou 12,7 milhões de turistas internacionais, um terço dos quais em Lisboa. Lisboa, em particular, tornou-se um centro de atracção não só para os que procuram lazer, mas também para quem procura emprego no sector do turismo. O custo de vida relativamente baixo, comparado ao restante da Europa Ocidental, é outro ponto de atração. Lisboa continua a atrair jovens em massa que optam por ficar por períodos prolongados de tempo devido ao fascínio do local. Simultaneamente, os jovens portugueses já abandonavam o país em busca de empregos mais bem remunerado mesmo antes da crise. Este declínio na população do país deu origem a que o primeiro ministro, Antonio Costa, tenha pedido um empurrão na imigração para o país, particularmente de mão de obra qualificada.

Apesar das implicações positivas do turismo que, aparentemente, resultam em imigração para o país por longos períodos de tempo, essas mudanças também vêm com alguns avisos. À medida que as pessoas migram e visitam a cidade, levantam-se questões sobre a sustentabilidade de tal indústria, incluindo se o país considerou problemas de excesso de turismo. De qualquer modo, Portugal emergiu da crise. Resta saber se o turismo levará o país a um utópico ou distópico “admirável mundo novo”.

Portugueses em Angola: o que mostram as estatísticas*

Protagonizados por imigrantes com diferentes perfis socioprofissionais, económicos, culturais, etc., os fluxos migratórios para Angola acentuaram-se a partir dos anos de 1990 com a abertura de uma economia dita de mercado e com os Acordos de Bicesse, cujas medidas facilitaram a circulação migratória em território angolano. Similarmente, a falta de mecanismos fronteiriços de controlo[1]face à migração ilegal, a formação de redes migratórias que atuam como elemento de intermediação entre os atores individuais ou pequenos grupos e as forças estruturais de atração, e a crise europeia e mundial dos últimos anos, inscrevem-se como fatores que não só apoiaram como estimularam novos fluxos migratórios para Angola.

A partir de 2002 com o terminar da guerra civil e, posteriormente, com a crise financeira mundial de 2008 e a tão falada crise na Europa intensificaram-se e diversificaram-se num contexto mais vasto de fluxos migratórios globalizados. Atualmente com o abrandamento da economia angolana, num ambiente (de crise financeira e cambial) marcado desde meados de 2014 pela quebra na procura e descida dos preços do petróleo e pela falta de investimento noutras áreas, com consequências na tomada de medidas de contenção da despesa pública, investimentos parados, restrições de acesso ao dólar, desvalorização do Kwanza, dificuldades em transferir dinheiro para fora de Angola, atrasos nos salários e nos pagamentos a fornecedores, etc., já se fala numa eventual diminuição dos fluxos migratórios.

No contexto global dos novos emigrantes portugueses, Angola configurou-se como um dos destinos preferenciais de muitos portugueses que migraram para fora da União Europeia, atraindo dezenas de milhares de trabalhadores nos últimos anos. Estima-se, tendo em conta a média anual dos fluxos entre 2008-2012, que 10 a 12% tiveram como destino Angola e Moçambique, 80 a 85% a Europa e 1% o Brasil (Pires, Pereira, Azevedo e Ribeiro 2014:37).

Os números referentes aos registos no Consulado Geral de Portugal em Luanda e Benguela, aqui delimitados a um período de 10 anos, mostram que o número de inscritos de 2008 a 2015 manteve uma tendência de crescimento, tendo passado de mais de 72 mil, em 2008, para mais de 134 mil, em 2015.

Registos consulares de 2008 a 2017

Gráfico elaborado pelo projeto “Trânsitos”, valores do Observatório da Emigração

Continuando a analisar a evolução da emigração de portugueses para Angola, mas agora com base em dados relativos ao número de vistos emitidos pelo Consulado Geral de Angola em Lisboa e no Porto, confirma-se que os portugueses continuaram a ir mesmo com a crise económica que desde 2014 se instalou nesse país:

Entradas de portugueses em Angola

Ano N Taxa de Crescimento 
2013 4651 _
2014 5098 9,6%
2015 6715 31,7%
2016 3908 -41,8%
2017 2962 -24,2%

Gráfico elaborado pelo projeto “Trânsitos”, valores do Observatório da Emigração

Contrariando algumas expetativas, a emigração portuguesa para Angola cresceu cerca de 32% em 2015. Porém desceu expressivamente de 2015 para 2016, perto de 42% (- 2.807 entradas) e de 2016 para 2017 (-24%). Os efeitos cumulativos e prolongados da crise em Angola, influenciando diretamente um menor número de entradas e um maior número de saídas, ajudar-nos-ão a compreender estes dados.

Estudos escasseiam, mas a emigração de portugueses para Angola tem-se acentuado e os perfis socioeconómicos, culturais, etc., diversificado. Para além dos investidores e empresários, existem ainda muitos trabalhadores portugueses expatriados em Angola, no âmbito de propostas de trabalho e projetos migratórios muito variados (procura de novas ou melhores oportunidades, desemprego…). Interessa-nos explorá-los e discuti-los na extensão das dimensões materiais dos movimentos contemporâneos.

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* Os números dos registos consulares sobre a emigração portuguesa para Angola devem ser lidos com precaução. Não só o registo não é obrigatório, como a sua atualização comporta algumas a fragilidades de manutenção. Já o número dos inscritos nos consulados portugueses em Angola de pessoas nascidas em Portugal só está disponível para o ano de 2013, ano onde se contabilizou 38.994 inscritos. Um número muito aquém dos anunciados nos media, cerca de 100 a 200 mil ou mais.
[1] Por exemplo a extensa fronteira com a RDC, país que partilha fronteira com sete (Cabinda, Zaire, Malanje, Uíge, Lunda Norte, Lunda Sul e Moxico) das 18 províncias de Angola, tem sido porta de entrada para muitos migrantes ilegais originários sobretudo da RDC e do oeste africano.

Portugueses na Austrália: cerca de metade da população migrante portuguesa reside na grande Sydney

A maioria dos australianos continua a viver nos estados continentais da costa leste do país. Em 2016, aproximadamente 77% viviam em Nova Gales do Sul (32%), Victoria (25%) e Queensland (20%) (Censo, 2016). De acordo com o Censo de 2016, o estado de Nova Gales do Sul, que tem Sydney como capital, continua a ser o território mais popular para se viver tanto para o total da população residente nascida no exterior (34%), quanto para os imigrantes portugueses (53%).

Local de Residência (estados)

Gráfico elaborado pelo projeto “Trânsitos”, valores de Australian Bureau of Statistics – Census 2016

A primeira vaga de migrantes portugueses ocorreu durante a década de 50 do século XX, maioritariamente com habitantes da Ilha da Madeira em direção a Fremantle, na Austrália Ocidental. Desde então, Perth e a Austrália Ocidental, em geral, têm sido um destino frequente para estudantes e trabalhadores qualificados portugueses, o que explica a maior presença deste grupo neste estado em comparação com a população australiana e a população nascida no exterior como um todo.

 Portugueses – Ano de chegada a Nova Gales do Sul, Austrália  

Gráfico elaborado pelo projeto “Trânsitos”, valores de Australian Bureau of Statistics – Census 2016

Em 2016, a maioria dos migrantes portugueses continua a viver em Nova Gales do Sul (53%), dos quais 82% residiam na grande Sydney. Muitos deles chegaram ao estado entre 1966 e 1975 (39%) e continuaram a chegar nas décadas seguintes: 1976-1985 (18%) e 1986-1995 (21%). Na viragem do século, a chegada de migrantes portugueses diminuiu acentuadamente (3,7%). No entanto, em meados da primeira década do século XXI, a chegada de portugueses voltou a aumentar (10%). O aumento recente e significativo da população portuguesa em Nova Gales do Sul é evidente e crucial para a nossa pesquisa, abrindo novas questões sobre a configuração, projetos e aspirações destes recém-chegados.

Este e Oeste: onde vivem os imigrantes na Alemanha e em Berlim

Os estados mais ricos e industrializados do sudoeste da Alemanha são geralmente preferidos pelos imigrantes. Isto é visto como ainda estando relacionado com a divisão entre a Alemanha Oriental e Ocidental antes da unificação: para superar a escassez de trabalhadores vindos da Alemanha Oriental após a construção do Muro de Berlim em 1961, a Alemanha Ocidental estabeleceu acordos bilaterais com países do sul onde as taxas de desemprego eram altas, de modo que trabalhadores convidados (Gastarbeiter) desses países se mudassem e trabalhassem na indústria Alemã. Em 1964 o número de trabalhadores convidados ultrapassou o milhão. A intenção dos programas era a de que esses trabalhadores estrangeiros ficassem na Alemanha apenas temporariamente, mas estes, juntamente com as suas famílias, tornar-se-iam residentes permanentes.

Hoje em dia,  mais de metade da população migrantes portuguesa, onde se incluem migrantes de primeira e segunda geração, concentra-se nos estados de Nordrhein-Westfalen (26,1%), Baden-Württemberg (20,1%) e Hessen (10,5%).

Em Berlim, onde o Muro dividiu a cidade na Alemanha Oriental e Ocidental, podemos encontrar um microcosmo da Alemanha como um todo, com a parte oeste da cidade sendo mais afluente e cosmopolita do que a oriental. Relativamente à distribuição dos migrantes em Berlim, Mitte, no centro histórico, é o distrito com maior percentagem de imigrantes, tanto de primeira (a verde nos gráficos redondos do mapa) como de segunda geração (em azul escuro). Os distritos ocidentais de Charlottenburg-Wilmersdorf e Neukölln também apresentam altas taxas de população nascida no exterior, com os distritos de Marzahn-Hellersdorf e Treptow-Köpenick, no leste, tendo as taxas mais baixas. Os cidadãos da UE (dos quais excluímos os polacos devido ao seu maior peso relativamente a todas as outras nacionalidades) seguem geralmente esta tendência. Não existem números para os portugueses.

https://www.statistik-berlin-brandenburg.de/publikationen/Stat_Berichte/2018/SB_A01-05-00_2017h02_BE.pdf

Berlim: população migrante portuguesa com pouca representação feminina

De acordo com as estatísticas oficiais,  em 2017 Berlim tinha uma população superior a 3,5 milhões, dos quais um quarto era estrangeira.

Os países mais representados eram a Turquia (11,4%), a Polónia (11,4%) e a Itália (4,9%). Os nacionais dos países da União Europeia perfaziam 49% e os portugueses 1,7% do total de migrantes.

Berlim é o quinto estado alemão com maior população oriunda da União Europeia, e o quarto em termos da população portuguesa, com 10,2%, ou seja 14 905 do total de 146 810 portuguese que vivem na Alemanha.

No período contemporâneo os migrantes portugueses foram sobretudo instalar-se nos estados alemães mais afluentes e cosmopolitas do sudoeste do país, cujos núcleos industriais importaram a maioria da mão-de-obra portuguesa que chegou ao país nos anos 1960 e 1970 ao abrigo do programa de  trabalhadores-convidados (Gastarbeiterprogramm).

Relativamente a Berlim, a cidade viu a sua população portuguesa crescer de forma estável desde a queda do Muro de Berlim até 2017, ano em que, já no período de recuperação da crise que proliferou o desemprego no sul da Europa, o número de migrantes portugueses triplicou relativamente ao ano de 2016. No entanto, enquanto que a população feminina duplicou para 3 210, a população masculina quadruplicou e chegou aos 11 695, fazendo com que a população feminina representasse apenas 22% do total de migrantes portugueses em Berlim. A proporção de mulheres migrantes é significativamente maior no total da população imigrante e entre Alemães.

Este aumento significativo recente da população portuguesa em Berlim, assim como a tímida representação feminina são dados relevante na caracterização da população portuguesa em Berlim, que abre questões e suscita hipóteses a serem testadas no decorrer da nossa investigação.

Kathy Burrell no ICS esta semana

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